sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Análise de riscos, recordando...

Recordando, que para isso também é este blogue…


Declaração de interesses:
É sempre arriscado escrever sobre a vida profissional passada.
Mas o tema é esse mesmo, os riscos…
Risco de ser entendido como crítico dos jovens a quem estão cometidas as mesmas funções.
Seria um mau entendimento; orgulho-me de ter contribuído para os que vieram depois de mim saberem mais do que eu.
Não posso dizer que aprendi muito, mas que aprendi com a experiencia, isto é, com os erros e omissões, aprendi.

E isso espero dos mais jovens, que saibam aprender, não se fechem em certezas nem se abriguem em compartimentos estanques, e que ponham hipóteses.
Não é a base do método científico? Aprender com a experiencia e pôr hipóteses?
Este post está escrito em discronia, isto é, misturando factos passados efetivamente acontecidos, com outros que poderiam ter acontecido, ou com factos prováveis eventualmente já acontecidos ou que poderão vir a acontecer.



O incêndio da estação Alameda em 1997 e os contactos com outros metropolitanos e com órgãos de normalização internacional suscitaram no metropolitano de Lisboa o interesse pelo estudo da disciplina de análise de riscos e suas aplicações aos transportes.
Primeiro, logo a seguir ao incêndio, o metro contratou uma firma especializada para fazer a análise exaustiva de todos os sistemas do metro.
O relatório, com todas as árvores de falhas resultantes da análise do histórico de avarias e perturbações de funcionamento, e de entrevistas com os profissionais de cada especialidade, constituiu-se como uma bíblia a respeitar e um guia de análise e de definição de objetivos de correção.
Infelizmente, prevaleceu a doença muito portuguesa de interpretação (a comprovação de que se trata de uma doença nacional é periodicamente demonstrada com os relatórios do PISA, com base nas provas prestadas pelos alunos dos últimos anos do ensino secundário, alunos esses, pelo menos alguns, que serão os gestores de topo dentro de alguns anos), nos níveis de gestão, de manter as coisas importantes inacessíveis e sigilosas.

Digo doença de interpretação porque um documento confidencial não quer dizer que deva estar fechado, sepultado no arquivo.
O tema deveria ter sido amplamente debatido entre os profissionais do metropolitano, e não limitado a alguns.
Dado que o humilde escriba deste blogue exercia as suas funções em áreas técnicas associadas à segurança dos passageiros e da circulação dos comboios, acabou por receber um convite para participar num seminário de análise de riscos no Instituto Superior Técnico.
Foi assim que teve o prazer de voltar por uns dias ao contacto da sua alma mater, para apresentar o pequeno trabalho que poderão consultar no skydrive, em
https://skydrive.live.com/redir?resid=1EBC954ED8AE7F5F!117

A apresentação de comunicações em seminários ou congressos pode gerar, também graças às doenças de interpretação e aos critérios de rigidez hierárquica dos gestores portugueses de topo, situações embaraçosas.
Porque o gestor de topo, por não ter formação técnica em engenharia, pode interpretar, ou recear, que um trabalho original (que possivelmente não compreende em extensão e em profundidade) seja uma afirmação de discordância ou dissidência, por parte do técnico autor, relativamente às estratégias superiormente definidas.
Ou pode simplesmente achar que são ditas coisas a mais, no pressuposto de que o segredo é a alma do negócio.
Na realidade, o segredo não é a alma do negócio, entendido como prestação de um serviço à comunidade.
O segredo neste caso é uma doença, é um ataque que se faz à saúde do negócio (imagine-se o que seria se os laboratórios de investigação não cooperassem na descoberta de vacinas contra epidemias).
Aliás, já é amplamente conhecida a oposição entre o desenvolvimento científico, com a obrigação de divulgação das descobertas desde a academia das ciências do século XVII, em oposição ao desenvolvimento económico, com a guerra das patentes.

O tema da análise de riscos, por ser de interesse público, foi então tratado por mim sem a preocupação de ocultar, por exemplo, causas de acidentes ocorridos em metropolitanos.
Felizmente só recebi a reprimenda depois da realização do seminário, porque alguém se terá queixado ao gestor de topo (que no meio das suas decisões sobre estratégias não terá tido tempo para ler o texto que, de forma bem comportada, eu pus a circular no circuito hierárquico) de que era pouco diplomático eu estar a descrever as causas de acidentes em metropolitanos com que tínhamos relações, como o de Paris (um acidente incrível, um excesso de velocidade não controlada numa curva de parâmetros fora das normas porque na altura da construção da linha havia outra, de uma companhia concorrente, demasiado próxima, e a utilização de um material circulante obsoleto) e o de Londres (um caso de loucura de um maquinista).
Assim se evitou o constrangimento de uma censura prévia.

Na verdade, o tema da comunicação integrava-se na definição de estratégias, uma vez que o seu objetivo era, através de um gráfico, mostrar a importância da comparação da gravidade das consequências de um acidente ou de uma perturbação com a frequência com que podem ocorrer para definir o risco, e da comparação entre os custos do acidente e dos custos das medidas que o evitem (ou reduzam a sua probabilidade) para, ao nível da gestão de topo, serem tomadas as decisões de investir as medidas preventivas ou aceitar o risco e preferir as medidas de remedeio depois do acidente.

O problema também não é assim tão simples, porque, apesar de um histórico de acidentes ou perturbações, interno ou de outros metropolitanos, e de convenções probabilísticas, nomeadamente em questões de software, é difícil definir uma escala de níveis de segurança e entender esses níveis e a sua correspondência com o tipo de acidente ou perturbação.
Por exemplo, na técnica de sinalização ferroviária, pretende-se que qualquer avaria de qualquer componente conduza a uma situação segura (uma avaria num componente ou uma falha no processamento de informações coloca automaticamente o sinal em vermelho, mesmo que o caminho esteja livre).
Mas isso não basta, porque na origem de um acidente ou perturbação e no agravamento das suas consequências pode estar a falha humana.
Por caricatura, pode-se exemplificar com um posto central de comando do movimento dos comboios, em que de repente os seres humanos eram substituídos pelos nossos primos primatas que começavam a carregar aleatoriamente em teclas .

O nível de segurança de um sistema será tanto mais elevado quanto melhor resistir a procedimentos incorretos e impedir que, em consequência deles, sejam executadas pelos comboios em linha manobras perigosas (no fundo, é a teoria dos itinerários incompatíveis, é a impossibilidade de permitir um itinerário sobre outro que já começou a ser percorrido, a impossibilidade de colisão).
Neste sentido, os metropolitanos e as redes ferroviárias têm caminhado para a progressiva instalação de sistemas de controle automático da marcha dos comboios (ATP – automatic train protection) e de condução automática (ATO – automatic train operation) , desviando a responsabilidade de qualquer acidente ou perturbação do fator humano para o fator técnico.
Infelizmente, por mais elevado que seja o nível de segurança do sistema, podem existir janelas de insegurança, e as pessoas terem tendência para considerar os sistemas inseguros, ou, pelo contrário, para condenar os profissionais.
O próprio sistema ATP pode ser contornado, deliberadamente e em certas circunstancias, por uma condução manual não controlada.
Daí a importância de uma regulamentação rigorosa e de uma formação e reciclagem frequente que possibilitem, através da assimilação das razões dos procedimentos e dos perigos em causa, conter os riscos.

Este caso foi brevemente tratado no pequeno trabalho que referi, com o exemplo do acidente no metro de Bangkok, pouco tempo antes, em Janeiro de 2005, seis meses depois do inicio da exploração, apesar da proteção do sistema ATP.
Houve necessidade de fazer avançar um comboio, em condução manual, sobre um outro que tinha avariado no acesso ao parque de oficinas.
De acordo com os regulamentos, só depois do acoplamento estar confirmado é que se aliviam os freios do comboio avariado.
Não foi o que fizeram os profissionais de Bangkok; como o troço tinha uma pendente para a linha em exploração, o comboio avariado, com os freios desbloqueados, deslizou para o meio dos comboios em exploração e acabou por embater num comboio parado (pelo sistema ATP) numa estação, provocando 200 feridos.
Os envolvidos, incluindo os operadores no posto de comando central, foram acusados de negligencia agravada e potenciada por deficiente formação sobre procedimentos de segurança.
A análise dos acidentes tem elevado valor didático, embora eu possa ter sido acusado de alguma morbidez, ao interessar-me sempre que ocorria um acidente.
Na especificação do sistema ATP da linha vermelha, o qual esteve a funcionar de 2000 a 2009, tendo sido retirado de serviço por razões económicas, por decisão da gestão de topo, por altura da expansão da Alameda a S.Sebastião, foram considerados estes constrangimentos.
E mesmo assim, por alguma simplificação do fornecedor, suportada pelas pressas da inauguração da linha para a Expo 1998, algumas deficiências ficaram (lá está, o nível de segurança de um sistema pode variar, desde que acima do razoável).
Por exemplo, as saídas das vias de garagem previstas a jusante das estações de Bela Vista e de Chelas, no caso do maquinista não ter ligado o sistema ATP e arrancado em condução manual, não protegida pelo sistema ATP, poderiam conduzir a uma situação perigosa (de qualquer modo, é sempre possível desligar um sistema ATP; é a sindroma do condutor louco, desligar os sistemas de segurança e ignorar os regulamentos) .
Por isso, o manual de segurança pôs a tónica na regulamentação que proibia as saídas nessas condições, exigindo a comunicação “testemunhada” por terceiro entre o maquinista e o posto de comando central, e a proximidade de um “chefe de estação” para confirmar localmente as condições de segurança.
Medidas técnicas para melhoria da segurança e deteção da manobra perigosa foram então combinadas com o fornecedor (emissão de uma ordem automática de travagem a todos os comboios nas proximidades e redução do espaço à frente do comboio para atualização da informação sobre o espaço livre à frente do comboio, para reduzir o tempo de reação a mudanças de ocupação da via) para instalação quando a linha fosse ampliada para S.Sebastião juntamente com o sistema ATP, o que infelizmente não veio a acontecer.

Evidentemente que o sistema de sinalização automática que foi instalado em substituição tem um nível de segurança suficiente, embora não imune ao síndroma do condutor louco, como qualquer sistema.
Por isso todas as redes de metropolitano devem ter, como o de Lisboa, um grupo de técnicos da especialidade a pensar nestas coisas e nas melhorias cujas necessidades vão sendo detetadas.

O perigo é os gestores de topo acharem, por não terem formação técnica de engenharia ou por estarem condicionados pelas implacáveis reduções de custos da tutela, e por a exploração do metropolitano de Lisboa ter primado pela ausência de acidentes, que o trabalho dos técnicos da especialidade não é necessário, ou demasiado dispendioso, e assim, progressivamente, poderão os passageiros ficar expostos a níveis menores de segurança, dependentes apenas do que os fornecedores entenderem.
O perigo é os gestores de topo acharem que tudo se passa com normalidade, quando normalidade em transportes não é ter um comportamento normal; normalidade é cumprir as regras internacionais normativas de segurança.

A confirmar as minhas preocupações especulativas aconteceu, pouco tempo depois da minha apresentação no seminário do IST, um facto improvável que poderia ter originado um acidente (um acidente acontece com a convergência de várias causas ou circunstancias que normalmente não devem ocorrer ; tal como no tráfego rodoviário, marítimo ou aéreo, se uma ou duas delas ocorrerem mas as outras não, o acidente foi evitado):
Num dos términos de inversão a seguir ao cais de chegada onde saem os passageiros (e sabe-se como é humano os maquinistas sentirem-se mais libertos na condução quando não têm passageiros no comboio) existia, junto do sinal de fim de manobra, um caixote do lixo; houve uma noite em que a senhora da limpeza não repôs o caixote na sua posição; no dia seguinte, um dos maquinistas parou o comboio junto do caixote, sem reparar que o sinal estava mais à frente; quando mudou de cabina e retomou a marcha, como o itinerário com os aparelhos de mudança de via ainda na posição de mudança de via, o comboio avançou sobre o que, entretanto, chegava à estação (porque o comboio prevaricador tinha previamente libertado o sinal de entrada por haver distancia suficiente para o cais de chegada); ambos os maquinistas conseguiram travar a tempo.
Analisada a questão, foi decidida uma série de alterações no sistema de processamento da sinalização de modo a evitar a repetição desta situação perigosa (nomeadamente a obrigatoriedade do aparelho de via retornar à sua posição direta).

Qualquer alteração só pode ser feita pelo fornecedor, que deve sujeitá-la a certificação por entidade exterior.
Da nossa parte há a obrigação da realização de um concurso público (na verdade, a lei da contratação pública permite outras formas que se esperaria serem mais expeditas, mas que no entanto obrigam a outros procedimentos igualmente paralisantes para uma empresa pública como o metropolitano de Lisboa, a qual não tem a liberdade de movimentos com que o governo negocia a privatização das empresas dos contribuintes) e isso também leva tempo e obriga a, em função dos recursos humanos da especialidade disponíveis, a seriar as prioridades das tarefas.
Foi assim que, durante alguns anos, não se conseguiu convencer a gestão de topo a dar prioridade ao concurso para resolução desta questão, que abrangia outros pontos terminais da rede.
Felizmente, numa janela de tempo a seguir ao prolongamento da Alameda para S.Sebastião, conseguiu-se. Já não era sem tempo, como se costuma dizer.

Este facto, porém, não impediu que eu continuasse a ser olhado com desconfiança, ao fazer as minhas análises de risco, por exemplo estendendo ao ramal de acesso à linha em exploração, na estação da Alameda da linha do Oriente (agora do Aeroporto) as mesmas preocupações que tivemos nas saídas das garagens de Bela Vista e de Chelas.
De facto, que aconteceria se um maquinista distraído (ou louco, como disséramos no caso das vias de garagem) resolvesse entrar em contravia na linha do Oriente, a caminho da estação Saldanha e S.Sebastião, ultrapassando o sinal de fim de manobra? Que pensaria a opinião pública?




Claro que é uma situação extrema, de baixa probabilidade, frontalmente oposta ao que está escrito no regulamento, mas o cérebro humano é perigoso, gera riscos quando não cumpre as normas de rigor.
Pode um maquinista ter na sua ideia um itinerário a fazer e o operador do posto de comando central outro itinerário; pensam que estão a falar do mesmo e não estão. Aconteceu uma vez um operador do posto central mandar um maquinista para uma dada via no parque de oficinas; só depois de muita conversa pelo telefone eles perceberam que o operador estava a pensar num dos dois parques e o maquinista estava no outro.

Por isso o regulamento é muito severo e exige a intervenção do tal “chefe de estação” mais próxima (o nome da função é “operador de linha”).
Mas os tempos são de economia e pretende-se que as estações tenham o mínimo de pessoal. De preferencia só para vender bilhetes.
O mesmo no posto de comando central, dificultando a deteção de qualquer movimento anómalo de um comboio.
Criou-se também a ideia que a comunicação rádio resolve tudo (não resolve, se não se respeitarem os procedimentos pode gerar-se confusão, como se disse). Que uma supervisão centralizada economiza pessoal, contrariando assim o conceito de que a segurança ferroviária parte do local para o central, aliás numa metáfora da problemática da gestão das comunidades.

Isso é facilitismo, deixar as pessoas sem uma reciclagem frequente de regulamentos, sem ter a certeza de que as razões dos procedimentos são bem assimiladas, é gerar riscos (recordo o acidente de Clapham Junction, em que o pobre maquinista tinha tido 2 semanas de formação e não viu o sinal, encandeado pelo sol, em plena euforia tatcheriana de privatizações).

Também, desde o término de Santa Apolónia, as decisões dos gestores de topo de economizarem na configuração dos términos gerou términos que obrigam o comboio a mudar de via com passageiros a bordo (o que era interdito por uma regra anteriormente em vigor no metropolitano) e a circular em contravia durante algum tempo. É o caso também do término de S.Sebastião.

Não é bom para os maquinistas terem percursos em contravia com passageiros a bordo (psicologicamente, o fundamento desta afirmação é que o comportamento das pessoas em subterrâneos exige outros cuidados, e os intervalos curtos entre comboios também).

E depois o contexto que nos envolve a todos nestes tempos de penúria induzida, em que as pessoas se sentem ameaçadas e temem pelos seus empregos, apesar do artigo 58 da constituição da República portuguesa, também não ajuda nada.

Terá sido ou não por estas razões que comecei por propor, ao preparar as alterações para o prolongamento de Alameda II a S.Sebastião, que se mudasse um dos aparelhos de via pré-existentes para a posição assinalada no esquema a traço interrompido.
Porém, as razões económicas de simplificação levaram a que o esquema ficasse só com um aparelho de mudança de via, isto é, o acesso à linha faz-se no sentido ramal-Aeroporto e a saída da linha (para a linha verde e para os parques de oficinas) nos sentidos Aeroporto-ramal ou S.Sebastião-ramal. Os outros sentidos são possíveis, mas exigem mais do que uma mudança de cabina para a manobra.

Felizmente existem no metropolitano técnicos que sabem analisar estas questões e encontrar soluções.
Por exemplo, instalação na estação Saldanha, no sentido da contravia, de um sinal repetidor (equipado com baliza de travagem automática quando ultrapassado) do sinal de manobra do aparelho de mudança de via à saída da estação S.Sebastião.
Por exemplo, no sentido central-comboio, codificar através do sistema rádio, mensagens de autorização de acesso à linha em exploração, bloquendo a circulação em exploração, inibindo a marcha do comboio que acede sem a receção desse código e recebendo uma mensagem automática de alarme sempre que o comboio que acede desliga os sistemas de proteção.
Porém, como já referido, estas alterações exigem certificação e tempo.

Por isso, o rigor do regulamento e a reciclagem frequente dos profissionais ainda são o garante da segurança.

Pelo menos enquanto o metropolitano não voltar a ter dinheiro para instalar um sistema ATP, com as melhorias e os requisitos que referi.

E será bom continuar a praticar-se a disciplina de análise de riscos, em debate alargado, à boa maneira do método científico, por mais desconfianças que alguns possam ter.



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Falas de governantes - histeria, disse o senhor primeiro ministro.

O programa eleitoral do partido que ganhou as eleições falava em privatizar um canal da televisão pública. Não falava em fechar a RTP2. Não pode portanto invocar-se o cumprimento de um programa eleitoral.

Tampouco, em assunto tão sério e definido na constituição da Republica, se poderá invocar legitimidade para, sem 2/3 da vontade dos eleitores, fechar a RTP2.
O mal é admitir-se o ato bárbaro.
Depois, é só esperar uma oportunidade.
Certamente invocando que não há dinheiro (provavelmente os senhores da troika não exigirão o fecho da Antena 2, pois têm aspeto de ir a concertos na terra deles).

Falou ingenuamente o senhor primeiro ministro, acusando de histeria quem quis debater o tema (em democracia debatem-se os temas, não se chama "histérico" a quem não pensa como nós) que “ainda não sabiam que solução iam escolher, que se estava a estudar”.

Pena dizer isso, porque os profissionais destas coisas já vão sabendo há muito como se resolvem as questões do seu negócio.
É ingénuo e padece da sindroma do mundo fechado dos teóricos do movimento do sol à roda da terra dizer que as coisas só são compreendidas depois do próprio as compreender.
É por isso que a humanidade é gregária, para poder trabalhar em grupo e não estar à espera que tudo passe pelo entendimento de um dos da sua espécie.

E para completar a barbárie, o programa eleitoral do partido vencedor das eleições (com 29% dos votos relativamente ao universo dos eleitores inscritos) promete estender à RDP o mesmo procedimento.
Confirmam-se os receios depois de, há cerca de um ano, ouvir a entrevista do atual senhor secretário de estado da cultura à própria Antena 2.
Estes senhores provavelmente não ouvem a Antena 2.
Não devem ter preocupações com os temas que lá se debatem.
De música sinfónica, de câmara, de piano, orgão ou cravo, ou de ópera, devem fugir.
Nem uma orquestra de Antónios Vitorinos de Almeida conseguiria sensibilizar os seus tímpanos.

Por isso lhes dedico este post, sugerindo que sigam a ligação e ouçam, durante 60 minutos, o programa “Véu diáfano”, de Pedro Amaral, na Antena 2, dedicado ao erotismo na poesia renascentista de Guarini e na musica a capella (a vozes), também renascentista, de Jesualdo.

Poema Tirsi, morir volea, de Guarini:

“Tirsi queria morrer,
olhos nos olhos com aquela que adorava,
e ela lhe disse:
não morras já que eu também quero morrer
e quando ele fixava os olhos dela, belos, divinos,
a bela ninfa que sentia perto os mensageiros do amor, disse:
Ah, morre, meu amor,
que eu também morro
E Tirsi disse:
Ah, eu, minha vida, também morro
E assim morreram os afortunados amantes,
de morte tão suave e agradável,
que de assim morrer,
regressaram à vida”

Ouvir, especialmente se não entenderam como se pode regressar à vida depois de se morrer assim, em:
http://www.rtp.pt/programa/radio/p3110/c89047

(make love, not jeopardy of public service)


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Rua Ivens, metropolitano de Lisboa

Ver na RTP2 a transmissão da cerimónia dos jogos paraolimpicos lembrou-me a resistencia sistemática, mesmo no tempo do endividamento fácil,  que muitos dirigentes do metropolitano de Lisboa opuseram à adaptação completa das estações à acessibilidade de pessoas com mobilidade condicionada.
Por isso escrevi este post.




video

Rua Ivens, edificio do metropolitano de Lisboa.
Comprado em 1997 para instalar o acesso à estação da Baixa por elevador a pessoas de mobilidade condicionada.
Projeto gorado por ter sido estimada a sua construção por 5 milhões de euros, a acrescer o custo dos equipamentos (matéria suscetível de financiamento QREN).
Do outro lado da rua, restos de uma dependencia do ministério da cultura e da secretaria de estado da cultura.

Sic transit , diziam os romanos antigos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Operários regressando a casa


De Edward Munch, o  pintor norueguês autor de "O grito",  reproduzo, com a devida vénia a http://www.edvard-munch.com/gallery/vigorOfLife/workersReturningHome.htm

o quadro "Operários regressando a casa".


Fico a pensar no peso que teriam os seus salários no custo do trabalho e do produto.
E na duração da sua jornada de trabalho e que proteção social teriam.
Fico também a pensar no artigo 58 da Constituição da Republica Portuguesa, e a sua alinea a):

 "Todos têm, direito ao trabalho. Para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover a execução de políticas de pleno emprego"

Mr Sachs, make love, not jeopardy of public service

Mr Sachs, ou senhor doutor António Borges, faça amor, não estrague o serviço público.
É verdade que, como diz Marc Roche, autor de "O banco, como o Goldman Sachs dirige o mundo", citado pelo cronista do DN, o Goldman Sachs "destroi o que existe para, a posteriori, criar riqueza para os amigos" , e que a intervenção do senhor doutor na televisão é típica de um tratamento de choque para escandalizar.
Mas permita-se-me uma correção: não parece ser verdade o que disse o senhor doutor, que o Estado não é bom gestor.
O Estado nem é mau, nem é bom, não é gestor.
Um gestor vê-se, tem rosto e nome de pessoa, e é essa pessoa que é um bom ou mau gestor (ou assim assim, ou gestor de má fé, ou gestor de boa fé, ou nem uma coisa nem outra) .
O facto de uma empresa ser pública ou um orgão público gerir um serviço de interesse p´blico é apenas para reservar o direito dos contribuintes controlarem melhor uma coisa que lhes diz respeito, muitas vezes uma externalidade que ´beneficia alguns, mas que exige o contributo de todos.
Infelizmente isso não acontece, muitas vezes porque os partidos que ganham as eleições colocam nas administrações maus gestores ou simplesmente ignorantes do negócio do que vão gerir.
Profissionalmente conheci tantos.
E o senhor doutor António Borges, conhecerá os negócios de que fala?
Talvez não, a avaliar pelas palavras de Eunice Munoz, que não é suspeita de apoiar partidos de esquerda: "fico triste, a RTP2 é muito importante para o nosso trabalho... vamos esperar que haja bom senso".
Ou pela rápida informação que quem conhece o negócio logo divulgou: que a Alemanha, a Espanha, a França, a Inglaterra, os USA, todos têm canais públicos... como disse Joaquim Letria, "não é uma eutanásia, é um crime".
Ou como receou este blogue, a propósito da deriva do ministério da cultura no governo anterior e da excessiva especialização do atual senhor secretário de estado da cultura, os pequenos, mesquinhos e selvagens nibelungos tomaram o poder e estão a destruir a cultura.

PS em 29 de agosto - de repente, depois do choque das declarações do senhor doutor António Borges, muita gente terá percebido o atentado que é acabar com a RTP2. Eu ficaria mais satisfeito se as pessoas aumentassem a audiencia da RTP2, porque, na verdade, inclui muitos programas de interesse. Mas a audiencia de programas culturais depende de politicas culturais do governo que não existem. Por isso insisto na ideia dos nibelungos que tomaram o poder ajudam a manter a população afastada da cultura.
Aplausos entretanto para os profissionais da RTP que não deixaram cair os braços nem que a desmotivação os vencesse, e reagiram e demonstraram o valor do seu trabalho.
É o caminho para os profissionais das empresas públicas de transportes.
E agora que o "esquema" de concessão subsidiada da RTP1 e de fecho da RTP2 já foi debatido (não digo que é o que vai acontecer para não ser malcriadamente acusado pelo senhor primeiro ministro de "histérico"), já é mais fácil chamar a atenção das pessoas para que é o mesmo caso, por exemplo, da Fertagus, que recebe mais indemnização compensatória por passageiro.km do que o metropolitano de Lisboa; por exemplo. Assim, é natural que as empresas privadas apresentem bons resultados.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Recordando a lei da contratação pública a propósito de uma entrevista de Proença de Carvalho

O autor deste blogue devia concentrar-se nas suas recordações da vida profissional, mas não tem conseguido abstrair dos tristes acontecimentos que vão ocorrendo.


Neste post tenta misturar as duas coisas, a propósito da também triste lei da contratação pública e de uma entrevista no DN de Proença de Carvalho.


Proença de Carvalho dirige um dos mais importantes escritórios de advogados de Portugal.
Ao entrevistador diz que é normal em Portugal os grandes escritórios de advogados fazerem bons negócios.
Proença de Carvalho é uma personalidade interessantíssima, porque é também um bom musico.
O que é também um facto notável, porque a musica é a arte suprema da abstração, pouco compatível com as minudências dos tratos económicos e jurídicos, requerendo uma sensibilidade que distingue a espécie humana.

Parece a este blogue que no tecido económico, se comparado com os tecidos da biologia, os escritórios são agregados de células que facilitam o funcionamento de órgãos (fiquei sempre com a imagem da jovem professora Ester da minha instrução primária a contar a parábola do patrício romano que conseguira apaziguar a revolta dos escravos e dos artesãos contando que os patrícios eram o cérebro e estômago e os outros eram os braços e as pernas que tinham de trabalhar).

Parecerá também que facilmente esses agregados desenvolvem tumores, uns benignos e outros não.

E assim vive o país com os seus escritórios.

Possivelmente eles não seriam necessários se vivesse em anarquia plena.

Ou se se vivesse sem conflitos de interesses.

Mas é assim que se vive.

E é assim que também alguns de nós, cidadãos, refletem sobre esse facto.

Transcrevo as notas pessoais que tirei numa reunião em 2008 de apresentação do código de contratação pública no metropolitano de Lisboa.

O grande escritório (não o de Proença de Carvalho) tinha concluído o código, cujo objetivo era a simplificação, a clarificação e a imunidade à corrupção nos processos de concursos públicos, e andava em campanha de esclarecimento divulgando a boa nova.

Como é de uso em Portugal, um círculo restrito considerou-se mandatado para decidir sobre assuntos em que não tinha experiencia a nível direto na condução de empreitadas ou fornecimentos, mas apenas no contexto jurídico.

Perdoe-se a caricatura, mas foi o que pareceu ao autor melhor se adaptar aos factos.

Segue-se o texto de 2008, esclarecendo que PIM, PAM e PUM eram membros do conselho de administração da altura, e que já não vai construir-se tão cedo, para o TGV, a ampliação da estação do Oriente, sobre a estação do metropolitano, nem o novo aeroporto:



De como se manifestou a força do pensamento português na regulamentação do novo código de contratos públicos e de como essa força chegou até nós, humildes servidores da empresa pública Metropolitano de Lisboa

Sentámo-nos no anfiteatro de ambiente acolhedor e ouvimos o que o consultor jurídico tinha para nos dizer.

O gabinete de advogados tinha produzido para o governo um novo código, com 500 artigos, sintetizando toda a regulamentação dos contratos públicos.

Eu sentei-me na última fila, perto da saída e deixei-me embrenhar na problemática da inclusão do Metropolitano nas condições do artigo 7º do código por ser uma empresa com actividade de transportes; ou se não deveria ingressar no ambito do novo código pelo artigo 2º , porque realmente é uma empresa do interesse público (a ideia de haver metropolitanos era poupar tempo e energia, não era?) que não tem actividade industrial ou comercial, o que será uma forma rebarbativa de dizer que não pode gerar lucro com a actividade que tem e que é uma externalidade para serviço público, e portanto assim a legislação não lhe permitiria beneficiar das prerrogativas do novo código para escolha da forma de aquisição de grandes empreitadas e de bens ou serviços, mas que efectivamente afinal permite por força do artigo 12º do mesmo novo código que, porque o Metropolitano o que quer comprar é, duma forma directa ou principalmente, para exercer a sua actividade de transportes, então pode, pode sim, beneficiar das ditas prerrogativas, de que as que mais interessam são os limites mínimos do valor do contrato.

E então, cansado do esforço de atenção e logo a seguir a um lapso de tempo em que a sonolência me pareceu impossível de vencer, reparei que ao meu lado se tinha sentado uma personagem estranha, de estatura mediana, magro de carnes, de cabelo rapado com um bico sobre a testa, à Mefistófeles, espreitando dum chapéu de coco que o identificava, juntamente com a indumentária restante, como o assistente de Freud, conforme me pareceu tê-los visto na reprodução de uma fotografia dum jornal da época, Freud em visita ao seu professor Charcot no hospital da Salpêtrière, 60 anos depois da libertação humanitária de Pinel
( ver
http://en.wikipedia.org/wiki/Piti%C3%A9-Salp%C3%AAtri%C3%A8re_Hospital
http://ajp.psychiatryonline.org/cgi/content/full/160/9/1579 ),

em Paris, não em Viena.

O homem chamava-se PIM.
Falava por explosões, não levantava os olhos mas tinha dotes de orador; era um digno assistente de Freud e tinha explicação para tudo.

Explicou que a regulamentação é uma doença que tem origem nos mecanismos da evolução das espécies, quando os Cromagnons, com grandes limitações de processamento de novas técnicas e grandes dificuldades de memorização de procedimentos ou técnicas duramente apreendidas na prática diária da caça ou da pesca, a ela recorreram para que as novas gerações repetissem à exaustão esses comportamentos. Nas sociedades modernas a ânsia de regulamentação é necessária para estimular a auto-estima das pessoas, tanto maior quanto maior a adequação do seu comportamento aos procedimentos regulamentados, ou, por outras palavras, explicou PIM, para que as pessoas se sintam bem em grupo por estarem normalizadas. Mas saiu logo a seguir porque se aproximava a hora de almoço.

Entretanto, o consultor ensinava que proposta base é aquela a partir da qual se começa a descer e que sim, desde que aplicássemos os nossos dotes adivinhadores, podíamos defini-la nos documentos do pedido de apresentação de propostas como o valor máximo que estamos dispostos a pagar.

E logo passou, triunfante, para os artigos do novo código que definem os tipos de procedimentos (concurso público normal ou urgente, concurso limitado com prévia qualificação, negociação que é o mesmo que concurso limitado com prévia qualificação que tem a grande vantagem de poder modificar as propostas depois de apresentadas mas que se o objecto do contrato não diz respeito directamente a actividades de transportes nem pensem em poder utilizar, e finalmente diálogo concorrencial que também é melhor não pensarem nisso).

Nem eu nem muitos dos assistentes, até porque tardava o almoço, resistimos à poderosa e rebuscada argumentação explicativa do que é o valor de um contrato: atenção que entram para além do preço as contraprestações, o valor dos bens móveis à disposição do adjudicatário e as isenções ou outras benesses; e porque os limites obrigatórios para concurso são 416.000 euro para fornecimentos e 5.150.000 euro para empreitadas se diz respeito a actividades de transportes, e 206.000 euro para fornecimentos e 1.000.000 euro para empreitadas se não diz respeito a actividades de transportes; mas atenção ainda que fazer um projecto de uma estação ou de um troço de galeria para o metropolitano não é actividade ligada directa ou principalmente a transportes e portanto há que respeitar os limites mínimos para poder beneficiar dos financiamentos, qualquer que seja o valor do contrato (estimado nuns casos pela experiência anterior e noutros pelo domínio de técnicas adivinhadoras).

Recomeçada a sessão após o almoço, sentou-se perto de mim uma nova personagem. Tinha dotes histriónicos notáveis e talvez por isso, pela estatura pequena, pelos punhos da camisa a sair das mangas do casaco e pela franja do cabelo, lhe achei semelhanças com o Roman Polansky do “Não me mordas o pescoço”
( ver
http://www.imdb.com/title/tt0061655/ ).

Chamava-se PAM.
Todas as afirmações que fazia, e eram muitas, para os que lhe estavam próximo, eram sublinhadas por movimentos amplos e horizontais das mãos, ou pelo gesto decidido do indicador espetado a acompanhar o assentimento da face concentrada e reveladora da familiaridade do assunto sobre que se pronunciava.

O consultor concentrava-se agora num exercício de compatibilização surrealista depois de eu próprio, inadvertidamente, ter deixado escapar um oh sonoro perante uma afirmação de PAM e o consultor ter interpretado esse oh como um pedido de esclarecimento.

Como resposta senti-me na obrigação de perguntar ao consultor como poderia completar um processo de concurso para submeter a aprovação o início do processo de formação do contrato se os meus queridos fornecedores de elevadores, e dei este exemplo porque temos a obrigação legal de os plantar por essas estações fora, só costumam fazer o projecto de montagem depois da obra de construção civil pronta, e lembram-se sempre de inventar incompatibilidades com os buracos que lhes deixaram.

Isto é, o projectista dos elevadores precisa do projecto de construção civil completo para fazer o seu projecto, mas o projecto de construção civil só pode ser completado depois do projectista dos elevadores acabar o seu projecto, o qual só pode acabar, como vimos, depois do projecto de construção civil estar concluído.

O consultor apelou à razoabilidade e PAM discorreu brevemente sobre o surrealismo na ciência jurídica, surrealismo esse que lhe parecia nunca ter conseguido vingar na matemática, ao que eu concordei que sim, que o assunto tinha sido tratado no filme (Mente brilhante) sobre John Nash
(ver
http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Forbes_Nash
http://www.math.princeton.edu/jfnj/ ),

o prémio Nobel da teoria da negociação, quanto é que está disposto a pagar pelo pretendido? quanto é que aceita para desistir da pretensão? A quanto é que o oponente está disposto? Não nos devemos concentrar no que é considerado o melhor, porque o que está escondido, pela teoria das probabilidades, sendo um cardinal maior, terá maiores probabilidades de ser melhor, e a prova foi que até lhe ofereceram uma caneta no fim da carreira. E assim devíamos desenvolver com o novo código os contratos formados sob a forma de “negociação” (mas atenção que, como no caso do Metro, só quem se dedica ao sector especial dos transportes).

Porém pareceu-me que havia pouco entusiasmo para isso.

O consultor terminava agora a sua intervenção e embrenhava-se em animada discussão com a plateia sobre os critérios de definição dos coeficientes lineares ou logarítmicos das curvas “descritoras” da avaliação da qualidade técnica das prestações dos concorrentes às empreitadas públicas.

Talvez o gabinete do consultor tenha consultado o professor Buescu para lhe dar umas dicas sobre as equações das curvas. Mas aquela do valor base ser um valor sagrado, indicia que não, que não falou, porque a estatística traduz o fenómeno natural que, à medida que o cardinal do conjunto das propostas cresce, a média das propostas aproxima-se do valor óptimo de mercado, e não do valor máximo ou valor base (já agora, não esquecer a dispersão expressa pelo desvio padrão).

E assim terminou o primeiro dia do curso.

O consultor iniciou com energia o segundo dia e logo se derramou pela plateia uma matéria viscosa de alta densidade que se acumulava nas cadeiras vazias e subia até cair pelos espaldares, iniciando novo processo de enchimento das cadeiras enquanto os ouvintes se encolhiam nos seus lugares.

Debatiam-se os meandros do regime substantivo com o reforço da autonomia contratual, a injunção das normas e o princípio da fungibilidade, possivelmente com o mesmo étimo do 4º reino natural
(ver
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fungi
http://www.brasilescola.com/biologia/fungi.htm )

ou talvez não, porque o que é fungível só pode ser consumido uma vez e os cogumelos, pelo menos quando não são venenosos, mais do que uma.

A sonolência derramava-se igualmente pela assistência, apesar de ser ainda manhã e a maioria dos assistentes ter bebido café.

O consultor estava desapontado por a audiência não ter perguntas.

Por momentos houve a esperança de que o código flexibilizasse a introdução de alterações ou modificações recomendadas pela evolução da obra ou pela entrada em vigor de nova regulamentação, até porque o código as “autorizava” desde que não alterassem as prestações principais do contrato.

Mas logo foram recordadas as condições especialíssimas e os limites (5% do valor contratual para o saldo dos trabalhos a mais e a menos; 25% quando há dificuldades técnicas; 50% para suprimento de erros e omissões) dessas alterações, e que qualquer alteração poderia mudar o ordenamento da selecção das propostas, que o mesmo é dizer que a base do direito é desconfiar do cidadão e atribuir-lhe o ónus da prova de que está inocente em vez de reservar para o acusador, quiçá neste caso o Tribunal de Contas, o ónus da prova da culpa.

Foi quando reparei que ao lado de PAM se tinha sentado o grande arquitecto Calatrava, que ia a passar por perto, a caminho da Gare do Oriente, para tirar mais umas dúvidas, ele próprio, para evitar voltar a cometer erros (como ele, na cerimónia da assinatura do contrato para o projecto de ampliação da estação para o TGV, classificou as consequências de não ter atendido os pareceres dos técnicos portugueses, a quem esclarecia, de cada vez que recebia um reparo: “Yo soy Calatrava”; mas isso não disse na cerimónia)
(ver
http://www.rr.pt/InformacaoDetalhe.Aspx?AreaId=11&ContentId=244098&SubAreaId=79&ZoneId=11)

PAM e Calatrava embrenharam-se em amena conversa. PAM garantiu-lhe que não havia problema. Como a aprovação da decisão de se ampliar a estação da gare do Oriente para o TGV já tinha sido tomada antes da entrada em vigor do novo código, este não seria aplicável e não haveria problema em não se fazer ainda a mínima ideia de quanto irá custar a nova estação, o que na realidade não é mesmo possível de adivinhar porque o arquitecto ainda está a ponderar que solução é que irá adoptar.

“Pero y como se hará quando yo proponga nuevos desarollos del proyecto?” questionou Calatrava.

“Tranquilo, hombre”- logo respondeu PAM, ou melhor dizendo, contestou – “Siempre podemos seguir diciendo, y eso hasta el nuevo codigo lo dice, que hay trabajos suplementarios de errores e omisiones necesarios porque el terreno es muy dificil bajo el punto de vista geo-tecnico”. E nada mais tendo a comentar, PAM e Calatrava sairam de braço dado.

Na verdade, o terreno é muito mau, aterro, aluvião, por exemplo; a estação de Oriente está num ponto baixo, sofre infiltrações, e agora vai levar, mesmo por cima com outro edifício do grande Calatrava.

Não bastavam as dificuldades de passar com o prolongamento da linha do metro para o aeroporto por baixo dos caneiros de adução do Tejo e do Alviela, de ir sempre a subir até ao aeroporto (mais gastos de energia durante a exploração nestes tempos de contenção ambiental, como se pode ver pela lista de medidas economizadoras de energia que é seguida religiosamente por alguns metros
(ver
https://skydrive.live.com/redir?resid=1EBC954ED8AE7F5F!111 )

e, quando lá chegar, o aeroporto bater as asas.

Vá que, apesar de tudo, ainda o novo código vai deixar que se façam contratos por concepção-construção (assim como assim, não podemos ser especialistas de tudo, e desde que se imponha no programa de execução condições de qualidade, o projectista do empreiteiro não fará o projecto mais simples e económico possível).
Vá ainda que se acaba, um bocadinho só, a tirania dos contratos por série de preços; sempre vai poder fazer-se um “blend” com os preços globais e por percentagem.

Também vai saber bem reduzir a forma de apresentação do concurso a duas fases: programa de execução, e projecto de execução. O problema é que a definição das duas fases carece, à boa maneira do pensamento português, de regulamentação por portaria, a qual, também por força desse mesmo pensamento português, dificilmente será desenvolvida com a participação de quem a irá aplicar.

Reparo agora que no lugar onde se sentava PAM está uma nova personagem, PUM, mascando continuamente uma pastilha de ácido hidroxicítrico de efeito saciante, o que era uma acção conscientemente integrada na tentativa de redução da proeminencia do estômago.

Com o seu sorriso de génio bondoso de lâmpada de Aladino, ainda teve tempo para me dizer, imediatamente antes de eu acordar quando o consultor fechava a sua exposição, alertando para que teremos de concorrer a um concurso público em 2022 para a exploração das instalações que agora achamos que são do metropolitano:

“Sabes, filho, este novo código é como o leopardo do Lampedusa
(ver
http://instintodaaccao.blogspot.com/2007/08/o-leopardo.html );

tinha mesmo de mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma.
Ou, como dizia Brito Camacho a outro propósito, inspirando António Aleixo
(ver
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=33585&cat=Frases&vinda=S ),

só as regras é que mudam
(ver
http://dn.sapo.pt/2005/07/11/tema/malamados_pela_maioria_a_cada_epoca.html )

Mas assim as regras são muito mais civilizadas, mais conformes com as directivas dos eurocratas, e os grandes empreiteiros ficam muito mais descansados com a sua, deles, consciência, não achas?”







domingo, 19 de agosto de 2012

De mister Pickles a monsieur Valls, passando pelo senhor doutor Miguel Macedo

Este é um post dedicado aos senhores ministros de administração interna.
Que têm uma missão impossivel entre mãos: a de compatibilizar o sistema de gestão financeiro e económico com a qualidade de vida dos cidadãos (ou a tarefa impossivel é eles próprios, sem entrarem em dissidencia com os seus partidos,  entenderem a correlação entre desemprego, insucesso escolar e livre funcionamento dos mercados por um lado e vandalismo por outro?)
Arderam bairros em Londres em 2011, ardem automóveis em Amiens em 2012, escorre sangue do telemóvel do ministro português em 2011 e em 2012.
Mister Pickles, Eric Pickles, é o ministro inglês.
Quis explicar, depois do exito do controle apertado sobre os jogos olimpicos, que os motins de 2011 tinham tido origem na vontade de jovens quererem usar vestuário e calçado de marca. Que tinha sido a ganancia , uma espécie de motim Gucci.
O meu comentário é que a ganancia dos vandalos foi crime, mas que a ganancia dos empresários e banqueiros não é considerada crime, mesmo que em consequencia das flutuações bolsistas e da cativação de terrenos para os bio-combustíveis  o preço do trigo suba de forma a gerar fome, ou que a policia dispare sobre os mineiros em greve na mina de platina da África do Sul quando pedirma aumento do seu salário de 400 euros. Dito de outra forma, Mr Pickles concordará com a minha análise, que a ganancia dos banqueiros e empresários poderá gerar riqueza apesar da fome e dos disparos mortais, mas que a ganancia dos vandalos de Londres não (aliás, até aumenta a despesa pública com a canalização do dinheiro dos contribuintes para o reforço da policia).
Mr Pickles acrescentou uma segunda razão para os motins: a sensação de impunidade que levou ao rápido alastramento dos motins a outros bairros.
E contudo, Mr Pickles sabe melhor do que eu que o desemprego jovem, entre os 16 e os 24 anos, aumentou 16% , de 2011 para 2012, apesar do sucesso dos jogos olimpicos.
São 1.200.000 jovens desempregados.
Diria um deus grego que Mr Pickles e os seus pares brincam com o fogo, pelo menos até onde a força da policia anti-riot conseguir evitar que ele se propague.
Valls, Manuel Valls, é o ministro francês.
Depois da expulsão de ciganos e dos motins em Amiens, o senhor tenta explicar que o seu partido não é como o anterior que reprimiu discriminatoriamente.
Mas a tarefa é dificil, trata-se de conciliar o programa do partido socialista de defesa dos direitos humanos com a obediencia minima  aos burocratas anti estado social que dominam a orientação ideológica da união europeia.

Finalmente, Macedo, Miguel Macedo é o ministro português.
Célebre pela sua frase "o meu telefone escorre sangue", que revela bom fundo, cansado de receber noticias de uma sociedade desestruturada, mas também ingenuidade de quem não tem conhecimentos para avaliar as justificações que lhe são dadas pelos dirigentes das entidades que tutela (resposta a um jornalista que lhe perguntara porque não tinham sido utilizados meios aéreos no combate ao incendio na Madeira: "dizem-me que não era possível utilizá-los").
Sinistralidade rodoviária, insuficiencia  de resposta contra os incendios, violencia familiar com mortes quase diariamente, insegurança nas habitações de férias de estrangeiros no Algarve, criminalidade organizada... O senhor ministro terá alguem a estudar os dados destas questões e a tentar encontrar soluções no meio dos cortes? Ou caber-lhe-á também a tarefa de ocultar a importancia do insucesso e abandono escolar das ultimas gerações no panorama de violencia familiar e criminalidade? de esconder a incompatibilidade da teoria económica vigente, de deixar os mercados funcionarem livremente, com o bem estar social? Penso que não exagero, depois de ver uma reportagem da BBC (que evidentemente não passou cá) sobre a degradação das condições de vida da comunidade negra em Washington DC, capital do império dos mercados livres, onde a miséria sem apoios mas que não vota nas eleições para a presidencia, convive com o maior PIB do mundo.

Noticias da Islandia

Mais uma vez a devida vénia ao cartonista do DN:




Entretanto, segundo informação do Dinheiro Vivo, o crescimento do PIB da Islandia no ultimo trimestre foi de 4,2% relativamente ao mesmo periodo do ano anterior, e a taxa de desemprego está em 6,2% .

Citação sobre os cortes

Citação de Artur Santos Silva, chairman do BPI e presidente da Gulbenkian, em entrevista ao DN em 18 de agosto de 2012:
"Os cortes deviam ser mais seletivos".
Concordo, mas há uma dificuldade.
Para os cortes serem seletivos, isto é, para não serem cegos, seria necessário que quem os faz tenha conhecimento do "negócio" daquilo que corta e tenha uma visão integrada, ou transversal, como também se diz, relativamente aos outros "negócios".
Tarefa quase impossível, depois de anos e anos de incultura e de especialização cega (i.é, de preocupação excusiva consigo próprio).
Donde, seria necessário desenvolver técnicas de tomada de decisão em grupo não homogéneo.
E é aqui que o país falha, com a agravante de poucos considerarem que este é um dos principais problemas da comunidade portuguesa.
Logo, os cortes podem não ser solução, e se por acaso o forem, manter-se-ão as dificuldades de eleger cortes seletivos em próxima crise (i.é, pouco se terá aprendido com esta crise).
Seria bom aumentar as receitas com produção de bens uteis, para exportação e para substituição de importações.
É bom saber que ainda se produzem bens uteis em Portugal. Nas exportações pesam os automóveis da Auto Europa e a gasolina das novas refinarias da GALP (que nada devem ao atual governo); mas tambem o ouro que era dos particulares. E quanto à substituição de importações? Quando continuamos a importar 80% de alimentos, e quando até energia elétrica estamos a importar (com a desculpa de que choveu pouco; porém, foi suspenso o programa de instalação de eólicas, com o pretexto de haver potencia instalada a mais; nota-se).
Como enquadrar a exportação de ouro com a afirmação de Artur Santos Silva na mesma entrevista  de que não houve acumulação de capital em Portugal depois do 25 de abril de 1974 porque se tratou de uma revolução e não de uma reforma? talvez começar por distinguir entre particulares, que foram acumulando algum ouro, e  empresários, que não o conseguiram, nas suas empresas. Confesso que é uma análise dificil para mim, mas que não vejo convenientemente tratada.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Free Pussy Riot

http://freepussyriot.org/

Libertem as Pussy Riot.
Aceitem a ideia de que uns podem acreditar em religiões e outros não, e que todos têm direito à expressão e à caricatura.
Deixem-se de repressões
Oiçam John Lennon no fecho dos Jogos Olimpicos a cantar Imagine, be a dreamer:


Imagine there's no Heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


PS 1 - o responsável da televisão turca do programa da cerimónia do fecho dos jogos olímpicos, deve ter sentido o mesmo que eu quando ouviu os primeiros acordes do "Imagine": como é possível? (como é possível, no meio de tanta ligeireza, transmitir um apelo à tolerancia contra grupos de dominação? pensei eu; o senhor turco terá pensado: como é possível? nesta canção há um verso contra as religiões!); e rápido e competente, correu a tapar o dito verso; podia deixar passar; ninguem quer acabar com as religiões, que isso é uma decisão que compete a cada um; pretende-se apenas que ninguém imponha seja que religião for a quem quer que seja; é assim tão complicado? não a imposições); mas o senhor turco compreendeu bem a ideia de John Lennon, o que não é abonatório para ele.

PS 2, em 17 de agosto - consta que as moças foram condenadas a 2 anos de prisão, apesar do pedido de clemencia do principal visado na "oração", Putin. Os juizes não quiseram compreender John Lennon

PS 3, em 28 de agosto - para assinar a petição para libertação:
http://www.avaaz.org/en/free_pussy_riot_free_russia_a/?bhAuBab&v=17312

PS 4, em 28 de agosto - para esclarecer eventuais dúvidas de almas religiosas mais sensíveis, repete-se que a evocação do Imagine de John Lennon não pretende "proibir" a prática de nenhuma religião; mas apenas que ninguém tem o direito de usar a religião para limitar os direitos fundamentais de terceiros. Live and let live.

PS 5, em 29 de agosto - confesso que não gosto da musica punk e que me parece fraquinha a musica das pussy riot; mas são bonitas e cantam bem, pelo menos quando entoam a vozes o canto ortodoxo; por isso, free pussy riot:







 

domingo, 12 de agosto de 2012

Pequena antologia de frases na imprensa em agosto de 2012

1. De Ignacio Calleja, professor de teologia em Victoria, citado por Anselmo Borges no DN :

"uma globalização económica, gerida no quadro do neoliberalismo, apodreceu especulativamente todo o sistema financeiro e social"… "há um golpe de Estado financeiro no mundo, com especial efeito nos elos mais débeis do sistema dos ricos e subordinação das democracias e dos gestores políticos do momento ao poder financeiro" … propondo-se:
1.1 - "Impedir socialmente o que alguns já chamam o fascismo social (i.é, salve-se quem puder e cada um que se arranje)"
1.2 - “instituir uma reforma fiscal, orçamental e política profunda, sem o que não há saída para a solidariedade, imprescindível hoje."
1.3 - “instituir o controlo 'social-democrático' do sistema económico e financeiro internacional e nacional, na sua opacidade, desregulação, acumulação e soberania expropriada”

2. De Horta Osório, gestor bancário em funções no Reino Unido, em entrevista ao DN (cito de cor):

“tudo se agravou com a securitização e a colaterização das obrigações e fundos tóxicos (venda especulativa de seguros de empréstimos)… a crise teve origem no setor privado e rapidamente se estendeu ao setor público, com as dívidas soberanas a tentarem salvar o setor privado”; na aplicação de medidas contra a crise, nunca me preocupei com a intensidade delas, mas sim com a sua direção”.

3. De José Manuel Trigo, empresário de discotecas e bares, em entevista ao Noticias Magazine:

“Quando se tira qualidade aos produtos, está-se a desvalorizá-los em vez de estar a criar valor acrescentado. Já estivemos na Assembleia da Reublica, com os secretários de estado do turismo de dois governos, mas as vistas são curtas” … “eles acham que isso dá votos (permitir a abertura por um mês de discotecas provisórias no Algarve, sem cumprimento das mesmas obrigações fiscais e de infraestruturas das discotecas “normais”) . Quando eles governarem para o povo e não para os votos isto melhora”.


4. De Catarina Carvalho, em editorial do Noticias Magazine:

“o ministério da educação vai reduzir a carga horária da educação física nas escolas, fechar centros desportivos extracurriculares, e não considerar a disciplina para a nota final dos alunos do secundário” … “quem trata como Portugal trata o desporto na escola, não merece bons resultados nos jogos olímpicos”

5. De Nelson Évora, em entrevista ao DN:

“Sempre que muda o governo, não se continua o que já se fez de bom”

6. De Ilídio Pinho, presidente da Fomentinvest, onde trabalhou Passos Coelho, em entrevista ao Dinheiro Vivo:

“O Estado, o sistema, é mau gestor, não tem tido capacidade de resposta em tempo real aos acontecimentos. A culpa não é do "A" ou do "B", o aparelho do Estado, tal qual está, construído na sua confusão, impede a capacidade de gestão em tempo real. As decisões demoram a tomar ou nem se tomam. Isso é o que está na base das dificuldades que temos” ... “dizer ao povo do Norte que vá trabalhar mais, isso não se faz! …Estou a falar do Norte mas podia falar do Sul. O que estou a dizer é que o corporativismo que reside em Lisboa tem de mudar de hábitos, os interesses ocultos têm de desaparecer” (e citou o caso da da necessidade de reforçar a componente pedagógica de um canal público de televisão)


Eu devia fazer como a CNN (ou será o EuroNews?) e registar isto sem comentários, mas não resisto: há outros caminhos para além dos cortes cegos.

Há as medidas dos 22 economistas aterrados (de que só agora, ao fim de mais de 2 anos, se ouve falar no empréstimo direto do BCE aos governos) e há o que os teólogos Callejas e Anselmo Borges sugerem:

“… é imprescindível uma vida moderada, mesmo com decrescimento no desenvolvimento, para viverem todos com menos e bem". (É verdade que os conselhos de administração não concordam com isto, mas deviam adaptar-se à diminuição do poder de compra dos consumidores no mesmo sentido, para evitar o agravamento das desigualdades sociais).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Selvajaria, disse ele, ou as auditorias...

Selvajaria, disse ele, o antigo presidente de câmara de Cascais que tinha assinado o contrato com a fundação Paula Rego.
Consta que o dinheiro para a fundação vinha das receitas do jogo e pouco tinha que ver com o dinheiro dos contribuintes.
Terá sido uma pequena desatenção dos senhores auditores do tribunal de contas.
Uma pequena falta de desatenção, como diria a senhora minha sogra.
Semelhante à que tinham tido com a avaliação que fizeram à fundação Gulbenkian, que teve de vir explicar que não é uma fundação pública e os dinheiros públicos que lá entram são-no por via de contratos de parcerias independentes do estatuto (os senhores auditores do tribunal de contas terão mesmo tomado conhecimento da atividade cultural da fundação?).
Mas sintomática da arrogancia pretensiosa de justiceirismo serôdio.
Digo serôdio porque é o mesmo espírito com que os cidadãos medievais encaravam o pelourinho como forma de ir castigando uns quantos como se fosse uma purga da sociedade, um elemento moderador.
Não contesto a necessidade de um orgão fiscalizador, mas a realização de uma auditoria exije aos seus autores muito tempo para ponderação, polivalencia de competencias  e sólido conhecimento do que estão a avaliar.
E um conhecimento sólido dificilmente se obtem sem experiencia vivida das mesmas situações a avaliar.
Duvido que os senhores auditores tenham experiencia suficiente de condução de empreitadas, de negociação de contratos e da problemática dos respetivos negócios  para serem tão assertivos.
Falo posso falar por experiencia própria.
Nunca tive a responsabilidade de fornecimentos superiores a 17 milhões de euros. Quanto a empreitadas de construção civil, apenas as acompanhava para fins de compatibilização com a integração dos sistemas e equipamentos.
Mas vi o suficiente para testemunhar a fraqueza de muitas argumentações do tribunal de contas.
Por exemplo, no caso do maior erro da engenharia portuguesa, o desastre do tunel do Terreiro do Paço, em junho de 2000.
Os inefáveis auditores deixaram passar o cerne da questão: por um lado, que o metropolitano tinha adjudicado por concurso público uma intervenção destrutiva (para permitir a construção da estação Terreiro do Paço) num tunel construido por outro empreiteiro e dentro do periodo de garantia, quando o correto teria sido a negociação por ajuste direto (as diretivas europeias prevêem esses casos quando tecnicamente fundamentado, como era aplicável, e não são os juristas e os financeiros do tribunal de contas que tem competencia técnica para avaliar isso); por outro lado, deixaram também passar a negligencia do empreiteiro que estava a realizar a intervenção no túnel (sim a fiscalização falhou, mas isso iliba o adjudicatário?) e que se viu até premiado depois da obra.
Mas voltando à minha experiencia pessoal: cerca do ano 2000 decorreu uma auditoria geral no metropolitano, que aliás deu origem a algumas conclusões válidas a que o sistema não deu seguimento. Coube-me a mim ser interrogado por uma financeira e um jurista sobre o fornecimento do sistema de sinalização ferroviária para a extensão Entrecampos - Cidade Universitária, inaugurada em 1988.
Dada a antiguidade da obra, arrastei-os para o arquivo morto onde respirámos os três poeira até eu encontrar os meus registos pessoais (não havia registo informático, em 1988; digo isto com a dúvida se seria possivel encontrar os registos se tivessem sido informatizados, mas isso é outro assunto).
E tive de responder à pergunta: porque tinha gasto o dinheiro dos contribuintes em dois concursos de sinalização, um para a Cidade Universitária e outro 4 anos mais tarde para o Campo Grande, quando teria sido mais económico fazer um só concurso de uma vez? (dada a extensão dos meios necessários para pôr em marcha uma ampliação de uma linha de metro, ficar-se depois por uma unica inter-estaçao a mais é sempre um investimento de baixa produtividade).
Respondi-lhes que tinha sido explicado aos senhores do ministério dos transportes da altura  que se teria poupado dinheiro assim, mas os senhores do ministério responderam que só havia dinheiro para fazer a extensão até Cidade Universitária (e também a extensão Sete Rios-Colégio Militar; diga-se de passagem que estas extensões foram feitas com financiamento público nas contas do Estado e não do Metro, coisa que não aconteceu depois, como se sabe da história do endividamento das empresas públicas) . Felizmente lá apareceu dinheiro logo a seguir , mas aconteceu também o problema com o cálculo da resistencia dos varões de aço pré-esforçado para o viaduto e estação do Campo Grande que inviabilizou o prolongamento até lá antes de 1993.
As minhas respostas devem ter sido satisfatórias porque não "apareci" no seu relatório.
Ou então as minhas contribuições terão sido consideradas irrelevantes.

Mas é, de facto, uma questão séria a das auditorias.
Já tenho referido o caso de auditorias internas realizadas com furia justiceira por colegas juristas ou financeiros sem conhecimento direto da realidade das obras. Convencem-se de que os colegas técnicos responsáveis da obra ndaram a favorecer os empreiteiros e as administrações receosas de ficarem manchadas apressam-se a mandar fazer inquéritos disciplinares.
Aconteceu com um colega que "desviou" de um troço de galeria para outro, não previsto no caderno de encargos, verbas da recuperação da galeria que tinham sobrado por utilização de um método mais económico de reparação.
Foi o cabo dos trabalhos, os sacerdotes puristas do formalismo juridico queriam a cabeça do colega. Felizmente estava na altura da reforma e ele reformou-se.
O mesmo aconteceu com outros dois colegas acusados de favorecerem o empreiteiro com o perdão de multas por atrasos, quando a complexidade da obra não admitiria que de fora fosse avaliada.
Estavam inocentes porque o que fizeram ou não fizeram resultou do cumprimento de ordens sigilosas do admnistrador do pelouro das obras e decorreu dos condicionalismos do pesado sistema de circulação de informação no metropolitano e das burocracias exteriores como atrasos por expropriações.
E a prova de que os colegas não tinham favorecido veio depois da conclusão da obra: tinha ficado mais barata do que o  previsto no caderno de encargos.
Só que os dois colegas já tinham sido despedidos.
Felizmente que um deles também aproveitou para se reformar, e a outra colega conseguiu provar a sua inocencia em tribunal do Trabalho (ou o metropolitano não conseguiu provar a acusação feia que lhe fez), mas ainda se aguarda a evolução do caso.

Auditorias, uma ideia perigosa, muito parecida com os pelourinhos medievais.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Incompetentes que estão a dar cabo do meu País

O governo anterior era incompetente pelas imprecisões financeiras e por permitir o usufruto dos dinheiros publicos por oportunistas, mas ao menos sabia o valor dos investimentos como fator multiplicador económico.
O trabalho da AICEP foi válido.
Este governo paralisa os investimentos, suspende o QREN e reativa-o deixando de fora investimentos razoáveis.
Parece gostar de desfazer o que o governo anterior tinha feito na área tecnológica.
São, como disse Gabriela Canavilhas, uma turma de contabilidade prática aos comandos de uma economia frágil com soluços erráticos, sem o mínimo exigivel de cultura geral e de conhecimento da realidade da industria e da produção.
Compete a quem teve experiencia profissional e formação técnica denunciar o triste facto.
É o objetivo deste post, relacionando os investimentos anteriormente inscritos no QREN e que este governo não soube dinamizar (ignorando as valias para a redução da fatura energética de importação de combustiveis fósseis), embora servissem empresas privadas, de forma direta ou indireta:
1 - o tunel do Marão
2 -  a fábrica de paineis solares fotovoltaicos de Abrantes
3 - o turismo do Alqueva
4 - a exploração das minas de ferro de Torre de Moncorvo
5 - a fábrica de baterias da Nissan em Aveiro
6 - motores e chapa para os asfalteiros venezuelanos
7 -  a fábrica de eólicas da Enercon em Viana do Castelo


Compreende-se o objetivo do senhor ministro das finanças: paralisar para conter despesas publicas.
Mas onde terá aprendido que estamos no ponto da curva dos rendimentos decrescentes em que se pode paralisar investimentos porque não dão retorno? Ao menos apresentasse a sua demonstração publica.

Sobre incêndios

Bom, há o relatório da GNR sobre os incêndios florestais no 1º semestre de 2012.
Merece-me confiança.
O sentimento de desconfiança escondida que os senhores ministros do interior e da defesa manifestam relativamente à GNR não é partilhado por este cidadão.
Toda a estatística não consegue fugir à regra de que, como entidade matemática que é, é uma abstração que pode ser um modelo da realidade mas que só a simula por aproximação.
Mas este é outro sentimento que não deve ser partilhado entre mim e os senhores governantes.
Provavelmente por grande divergência na nossa formação académica.
Mas a estatística é também um sistema de dados que merecem análise.

Nº de fogos …………………………………. 9400 ……. 100%
Nº de fogos por negligencia ……….…………5800 …….. 62%
Nº de fogos postos …………….……………. 1100 …….. 11%
Nº de fogos por causas naturais ……………. 8
Nº de fogos por causas não determinadas ….. 2400 …….. 25%

De notar que os incêndios por negligencia aumentaram relativamente a 2011, e o numero de casos de fogo posto baixou, assim como o numero de incêndios por causas não apuradas.

Perante isto, insisto em análises anteriores:

1 – embora seja um caso a merecer tratamento, o fogo posto não tem a dimensão que o justiceirismo e a fome de pelourinho querem fazer crer

2 – por negligencia entende-se fazer uma queimada em dia de vento e calor, atirar um cigarro ainda aceso para o campo, ou produzir carvão vegetal sem vigilância e sem meios de combate ao fogo por perto …

3 – é muito pequena a percentagem de floresta pública e muito difícil coordenar as ações de proteção entre uma miríade de proprietários; mas tudo seria mais fácil se ao nível de freguesias e câmaras municipais houvesse equipas de técnicos e prevenção de fogos florestais e, ao nível central ou regional, gabinetes de estudo para implementação de medidas de proteção (por exemplo, limpeza dos baldios, alimentação de centrais de cogeração com biomassa, produção de carvão vegetal); porém, a orientação do governo é a de não admitir pessoal que não seja para fiscal das finanças;

4 – a percentagem de hectares ardidos nas florestas que alimentam as grandes produtoras de papel no pais é muito menor do que nas outras florestas

5 – a gravidade dos incêndios é consequência de duas circunstancias principais:
5.1 – a desertificação do interior (fechar escolas, linhas de caminho de ferro e urgências de saúde é desertificar o interior; o que se poupa com os fechos é mais do que o que se gasta em transportes para os elementos centrais e do que se perde com os incêndios?)
5.2 – a insuficiência dos meios aéreos disponíveis (a eficácia dos Canadair é muito superior à dos helicópteros pesados e dos aviões ligeiros envolvidos).

Seria pois muito interessante que os números referidos em 5.1 fossem determinados e revelados pelo governo, e que se comparassem os prejuizos dos incêndios com o diferencial de custos do aluguer dos Canadair relativamente aoaluguer dos outros meios. .

Mas o verão vai passar num instante, e as chuvas do Outono vão fazer esquecer o pesadelo.

O pesadelo e a incapacidade dos decisores de interpretarem uma estatística.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os tecidos do hospital público e o incendio na serra de Tavira

Exmo Senhor Provedor




Sendo a primeira vez que me dirijo ao novo provedor do DN, gostaria de o cumprimentar desejando-lhe felicidades na sua função.

Escrevo-lhe para lhe pedir um comentário sobre os seguintes factos:

1 – noticiou recentemente o DN que os tecidos com a marca de um hospital publico que há tempos foram detetados em peças de vestuário no Brasil, não tinham tido origem no referido hospital.

Ora, na altura o DN deu ampla cobertura ao aparecimento no Brasil dos tecidos com a marca do hospital, que assim ficou com a fama de negligencia no tratamento dos lixos. Provado agora que tal não se verificou, seria de esperar que o DN desse igual cobertura ou, pelo menos, apresentasse desculpas formais ao hospital por a forma como tratou o assunto ter subliminarmente levado grande numero de leitores a fazer um julgamento precipitado.

O assunto tem, do meu ponto de vista, alguma gravidade, considerando que existe uma escola de pensamento que acha que o Estado não tem vocação para gerir hospitais.

2 – ainda mais recentemente, deu o DN cobertura à noticia da PJ de constituição como arguidos de trabalhadores da CME na construção do parque eólico do Cachopo, como responsáveis pelo grave incêndio na serra de Tavira, em Julho.

Embora a notícia pareça corretamente dada e pormenorizada, a leitura dos comentários leva a pensar que talvez tenha induzido nos leitores o julgamento sumário e a condenação dos “incendiários”.

A origem do fogo no fabrico do carvão ainda é uma hipótese, com elevada probabilidade, mas uma hipótese. O fabrico do carvão pode ter sido uma ação simultânea com o inicio do fogo, com outra causa. Donde será importante seguir a evolução do assunto até apuramento das causas e circunstancias.

Há ainda a agravante de, também subliminarmente, associar o parque eólico à origem do incêndio, numa altura em que uns, defendendo os seus interesses, dizem que há renováveis a mais em Portugal, e outros afirmam que conter o crescimento das renováveis, aumentando a importação de combustíveis fósseis, é uma ação de sabotagem económica do País.

Felizmente o cronista Ferreira Fernandes não deixou passar a oportunidade e, de forma semelhante ao que tinha feito com a morte do jovem em Campolide (ninguém tem o direito de matar ninguém, mas também ninguém tem o direito de julgar sumariamente o policia que cometeu um erro profissional), chamou a atenção que, até prova em contrário, não se poderia colocar hipótese mais grave do que negligencia no controle do fabrico de carvão vegetal (nas caixas e comentários já se pediam coisas horríveis para os “incendiários”; o que é a costela de espetador de autos de fé).

Seria interessante, penso eu, do ponto de vista jornalístico, aproveitar-se a oportunidade para esclarecer que o fabrico de carvão vegetal, desde que respeitando as regras de segurança, evidentemente, é uma atividade com valor ambiental do ponto de vista de poupança de combustíveis fósseis, alem de permitir uma atividade lúdica para muitos cidadãos que apreciam grelhados. Que deveria portanto ser estimulada, dentro do respeito das regras, e não condenada.

Igualmente seria interessante averiguar a eficácia dos meios aéreos empregues, sendo certo que a experiencia dos incêndios de 2003 e 2004 demonstrou que os meios mais eficazes são os aviões Canadair ou equivalente (isto é, seria necessário calcular os prejuízos havidos e compará-los com o aluguer dos Canadair).
Aliás, custa a compreender por que a união europeia não tem um sistema de proteção comum a vários países. Mas provavelmente estou a fazer aos governantes europeus o mesmo que fizeram aos trabalhadores da CME - a responsabilizá-los pelas consequências dos incêndios.

Ficaria grato se puder dedicar a sua atenção a estes assuntos.


Com os melhores cumprimentos

Fernando Santos e Silva







Ainda a TDT

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/06/indignacao-ouvido-em-nisa-e-em-cacela.html
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/01/tdt.html


Já foi falado neste blogue o despudor da introdução da televisão digital em Portugal.
Sabemos que o governo gosta de proteger os interesses de grandes empresas, e até estou a referir-me também ao governo anterior.
Por isso, a vantagem técnica da TDT, maior capacidade de canais, foi aproveitada em beneficio de operadores de TV e não da população economicamente mais débil, como parece ilustrado nos posts acima referidos.
Ao mesmo tempo, é chocante manterem-se 4 canais gratuitos (quando se conseguem apanhar), em comparação com maior numero em outros paises europeus.
A cobertura dos emissores digitais é inferior à dos antigos analógicos, provavelmente por serem menos e de menor potencia.
Resultado: os idosos do lar de Nisa ficaram sem ver televisão e à beira do Atlântico, junto de Espanha, aconteceu o seguinte:
É possível, instalando um descodificador, apanhar os canais espanhóis com a antena antiga virada para a Andaluzia. Com as antigas antenas viradas para Faro não se consegue sinal das emissoras portuguesas.
Para se conseguir acesso aos canais gratuitos ter-se-á de comprar uma antena nova (porque o comprimento de onda da emissão é menor e os elementos da antena têm de ser mais pequenos) e um amplificador de sinal.
Temos assim que, contrariamente à propaganda do governo, para manter o acesso aos canais gratuitos (a menos das taxas pagas coma fatura de eletricidade) é necessário dispender:

30 euros para o descodificador
70 euros para a antena
40 euros para o amplificador
30 euros para mão de obra e acessórios
Total 170 euros

É uma pena os senhores bem postos do governo, das autoridades reguladoras, dos operadores, tudo pessoas de bem com a vida, não se ralarem com quem não tem 170 euros para ver televisão “gratuita”.
Como dizia o outro, são poucos os votos que se perdem com isto, e os velhinhos se calhar nem iam votar (estão a ver por que deviam ser contabilizadas as abstenções na distribuição de cadeiras no Parlamento?), e não “faria sentido" estar a gastar dinheiro com quem já não produz.

É uma vergonha e uma desumanidade, salvo melhor opinião.



domingo, 5 de agosto de 2012

Nascer da lua na praia

Homenagem à série televisiva Espaço 1999.
Criada em 1972, prevendo a colonização da lua em 1999 e o depósito de residuos nucleares na sua face oculta.
Não foi bem o que aconteceu.
Também se previa na altura que em 1999 o combustível dos aviões seria o hidrogénio.
Não será das coisas piores que aconteceram, ou não aconteceram.
Na origem da história contada por Espaço 1999, a explosão do depósito nuclear e a saída da lua da sua órbita.
Recordo o episódio em que os 300 colonos tiveram o seu ultimo dia de sol.
Mas na vida a real a lua visita-nos todos os dias (ou noites) e promete a continuação, pelo menos para alguns.
Pode ser que lá mais para a frente no processo histórico essa esperança não seja só para tão poucos, que seja mais compatível com a declaração universal dos direitos humanos, e das obrigações, claro, claro.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A escola aprisionada


As escolas têm sido encerradas, fechadas, ou simplesmente aprisionadas?


Escolas feitas prisioneiras, com cadeado no portão.

Quer-me parecer que não foi previsto o aumento do custo dos combustíveis quando se decidiu que era melhor transportar as crianças para a escola do que ter uma escola perto das crianças (deteta-se aqui uma lacuna na formação dos decisores: não lhes terão ensinado o teorema de Fermat-Weber).

Esta escola tinha, no ano passado, 20 crianças a brincar no recreio, no mês de Fevereiro.
Agora está aprisionada.
Como a esperança de que as crianças tenham sucesso escolar.
Mas quando já se viu a esperança morrer por terem fechado uma escola a cadeado?

Dedicado a todos os ministros da Educação deste País, especialmente ao atual, tão crítico que foi aos anteriores para agora ser seu continuador, adensando a probabilidade de agravamento com o tempo da correlação entre insucesso escolar e criminalidade, violencia e desemprego, cito Natália Correia e José Mário Branco:



Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.


Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.


Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.


Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.


Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.


Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.


Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.


Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.


Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.


Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.


Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


                                                        Natália Correia
                                      Poesia Completa Publicações Dom Quixote, 1999




Tráfico de influencia



Desisto, por mais que tente nunca consigo uma análise tão perfeita como a do cartonista do DN.


Não vale a pena aprofundar mais o negócio da privatização do BPN.

Foi um caso de BIC laranja de ponta fina.

Muito fina, mesmo.

Deixa-me a pensar se os senhores governantes sabem mesmo o que estão a fazer.

Eu, na minha vida profissional, não sabia, e pensava cumprir a lei da contratação pública quando evitava contactos que pudessem ser interpretados como tráfico de influencia.

O mesmo (o tráfico de influencia, não o cumprir as regras da contratação pública) a que se referia Jorge Coelho quando respondeu angelicamente à entrevistadora da TV que o facto de ter sido ministro não iria prejudicar a sua vida profissional como gestor privado, pelo contrário, iria beneficiar da rede de conhecimentos que as funções de ministro lhe tinham proporcionado.

Na verdade, até concordo. Mais vale uma confissão sincera do que esconder as coisas.

Mas faz pena, e dá que pensar.

Eu fico mesmo a pensar nestas coisas da gestão pública, se os senhores governantes estão mesmo dentro dos assuntos sobre que tomam decisões.

Algumas perigosamente irreversíveis.

Por exemplo, será que o senhor secretário de estado da Cultura, um especialista do livro, não terá privilegiado na reestruturação da secretaria de estado e na alocação de apoios as áreas da sua especialidade?

E o senhor primeiro ministro, um gestor experiente de firmas de consultoria e formação do universo do grande gestor e investidor múltiplo Ângelo Correia, não teria privilegiado a reafetação de verbas do QREN a ações de formação em detrimento de investimentos, como deixa supor o crescimento do financiamento dessas ações?

Penso nisto quando a REFER anuncia o fecho do ramal de Cáceres em 15 de Agosto de 2012. Lá vai o Lusitânia Expresso (carruagens Talgo) dar a volta pela Beira Alta e Medina del Campo. Por Cáceres era mais perto… entretanto do lado espanhol é criado um comboio Madrid-Valencia de Alcântara. Descoordenações. A ligação rápida Lisboa-Madrid deveria aproveitar partes do traçado desta linha, pelo menos em Espanha (era aliás o previsto, para economizar nas expropriações).
Mas já estamos habituados, desde a gestão da água, da eletricidade, a estes desencontros ibéricos.
Geralmente os senhores governantes (refiro-me aos governantes em geral, não só aos atuais) têm poucos conhecimentos de transportes e têm tendencia a resolver assuntos em que se sentem mais seguros…

Penso nisto enquanto vou assistindo à inexplicável, num universo racional, dificuldade de interpretação do texto constitucional que remete a atuação das forças armadas nacionais no interior do país para ações de complementaridade e apoio. E que tem como consequência o senhor ministro da defesa não entender o papel da Marinha e dos conhecimentos técnicos específicos dos seus profissionais nas questões do mar, desde a proteção contra maremotos à vigilância das costas, e preocupar-se em exibir sua autoridade (como explicam os psicanalistas, esta preocupação revela insegurança).

Nada de ilegal, claro, o exercício de influencias (tráfico? tráfego? comércio? economia de influencia?), mas será uma movimentação de interesses denunciada e ingenuamente fundamentada na crença religiosa de que os interesses egoístas servem as comunidades (talvez, nalgumas circunstancias talvez).

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Biomassa

O autor destas linhas, quando foi aluno do professor Domingos Moura, no Instituto Superior Técnico, nos anos de 1968 a 1970, ficou encantado com a problemática da conversão da energia (mais correto seria dizer conversão, não produção).
Profissionalmente não pôde dedicar-se-lhe a fundo , mas acompanhou com alegria alguns progressos tecnológicos, e com tristeza as reações dos grupos interessados em ganhar dinheiro com a importação de combustiveis fósseis em detrimento das energias renováveis.
Mais tristeza ao presenciar a luta inglória ou então mal direcionada contra o abuso da construção da barragem do Tua (escrevi abuso, porque a meu ver seria razoável a construção da barragem uns quilómetros a montante, embora reduzindo a capacidade de armazenamento da albufeira e a ponta de produção) e a manifestação de graves dificuldades de interpretação dos factos técnicos na discussão de qualquer assunto que envolva a energia em Portugal.
A problemática da energia é, como já se disse neste blogue, dificilmente compativel com a livre concorrencia, por esta limitar gravemente a coordenação e integração das várias formas de produção, transporte e distribuição.

Por isso aplaudo as iniciativas da APREN, associação das energias renováveis, infelizmente apoucadas por muitos e pelo próprio governo, embora sem argumentação técnica sólida e despediçando tempo precioso.
Está a APREN neste momento enviando cartas abertas a senhores ministros, tentando explicar-lhes a importancia de produzir energia elétrica a partir de fontes renováveis.

Na impossibilidade de fazer chegar aos céus dos senhores ministros também a minha voz, limito-me a deixar aqui umas fotografias de biomassa desperdiçada.
Podia ser utilizada em redes de pequenas centrais de cogeração alimentadas por biomassa, podia contribuir para a limpeza dos matos contra os incendios, podia, podia...
É a cultura do desperdício que devia ser combatida.
Seguramente que nos consumos, mas o principal desperdício está em não produzir a energia possível com aquilo de que se dispõe: a água, o vento, o sol, a biomassa.
Custa muito a mobilizar a sociedade civil, é bem verdade, mas a APREN vai tentando.
É pena, diminuia-se o défice...




Simone Veil

Graças a um artigo de Francisco de Assis no Publico de dia 2 de agosto de 2012, leio a extraordinária citação de Simone Veil:
"A força que mata é uma forma sumária, grosseira, de força.
Muito mais variada nos seus métodos, mais surpreendente nos seus efeitos, é a outra força, a que não mata; ou seja, a que não mata ainda.
Vai matar certamente, ou vai matar talvez, ou talvez esteja apenas suspensa sobre o ser que a todo o instante pode matar; em todo  o caso transforma o homem em pedra".
                                                                           Simone Veil, a Fonte grega

Imagino a força que não mata como a insensibilidade que corta na Cultura, alinhando com os Goebbels e com os generais franquistas que puxavam da pistola sempre que ouviam falar de Cultura. Ainda ontem a RTP2 transmitiu o filme do fim do bunker de Hitler e do seu grupo de seguidores, os que amavam o seu país e o queriam salvar.
Imagino a força que não mata como o convite aos desempregados e aos reformados para se sentirem inuteis.
Imagino-a esgrimida pelos sacerdotes do "empreendedorismo" e da minimização das despesas públicas e da proteção social para os cortes na saúde (como já foi dito num debate televisivo: faz sentido gastar dinheiro com hemodiálise numa pessoa que já não produz?), na educação e na segurança social, que são as 3 maiores despesas.
Imagino-a como o crime sem nome, à distancia de uma geração de jovens, de deixar o abandono escolar afetar a população escolar, gerando nos adultos em que eles se tornarem a criminalidade, a violencia e a incompreeensão dos mecanismos da sociedade (como aliás já hoje os relatórios do PISA revelam).

Não há dinheiro, dirá o inefável ministro das finanças.
Nem pode haver, com um ministro das finanças que estima um aumento do IVA de 11% e ele baixa 2%, e com um ministro da Economia que não debate com a sociedade civil esta questão básica: nenhum país pode sobreviver a importar 80% dos alimentos  e 80% da energia primária que consome.
Isso sim, é impossivel.