terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Expansão da linha amarela do metro - perguntas e respostas

Depois do anúncio da expansão da linha amarela do metropolitano pelo XXI governo, no fim de 2016, e do entusiasmo da CML em apoiá-lo, tem-se tentado debater o assunto. Teme-se que estejam esquecidas pelos proponentes as boas regras da arte no que toca ao planeamento e à gestão de manutenção e operação de uma rede de metro. Por exemplo, rebatendo a linha amarela sobre o Cais do Sodré, vão sobrecarregar os atuais troços das linhas verde e amarela, alimentados pela linha de Cascais; quando seria preferível aliviar essa sobrecarga com a correspondência em Alcântara com a linha amarela independente.
Têm os proponentes demonstrado muitas vezes o fascínio pelas linhas circulares, citando o caso da linha circular do metro de Londres.
Mas, mas...



P  - What happened to circle line?

R  -  It has became a spiral line






-  e se já existisse em Lisboa a                      

             linha circular?

R  -  sugeria-se uma linha em espiral






P  -  existe algum argumento de impacto visual ou 
estético contra a construção de um término de 
metropolitano em viaduto em Alcântara?


R  -  não, Siza Vieira, ao justificar o seu projeto de
torres em Alcântara, recordou que já existe um 
volume dominante na zona, a ponte 25 de abril

Pexiste algum condicionamento externo, ou externalidade 
para que a população da área de Lisboa não tenha contribuído, e
 que impeça a chegada do metro a Alcântara? (no pressuposto de 
ter sido abandonado o anterior projeto da REFER)

R  -  não sabemos, ou só o saberemos, como facto consumado,
 no período de consulta pública de um plano de urbanização para 
condomínios privados, hotéis ou hospitais com zonas de exclusão 
(e contudo, uma linha de metro valoriza o edificado)

P  -  é necessário sempre, por razões de segurança e 
fluidez da operação, um término para inversão com 
cerca de 250 metros a seguir à estação terminal?



R  -  não; para evitar os constrangimentos do término de

Santa Apolónia, é possível um esquema de inversão com 3 

vias, com as pontas das agulhas junto dos pontos de 

arranque




P  -  porque foi destruída a ligação hectométrica entre as
 estações da REFER de Alcântara Terra e Alcântara Mar?

R  -  o pretexto invocado foi a falta de segurança contra

 ataques e os custos de manutenção; pode também dizer-se 

que a procura, por falta de atratividade da correspondência, 

era baixa; e que estava prevista uma intervenção profunda, 

com a construção de uma estação enterrada ligando as 

linhas de Cascais e de Sintra; o nó de Alcântara deve 

desempenhar um papel fulcral na correspondência entre 

linhas suburbanas e urbanas, mas será desejável um 

projeto diferente



P  -  porque são tão confusos os traçados das redes de 

metro, tanto nas grandes capitais como em Lisboa?
R  -  nas grandes capitais, porque havia uma grande 
concorrência entre operadoras , sem planeamento 
integrado,antes da fusão no operador único; em Lisboa, porque algumas fases de expansão foram por impulsos de curto prazo, desarticulados e não integrados em planos estratégicos


P  -  porque falham grandes projetos de investimentos públicos em infraestruturas?

R  -  mau planeamento, má gestão de custos e tempo,  deficientes métodos e deficiente organização societária (pública, privada ou público-privada) – ver BentFlyvbjerg, “Decision-Making on Mega-Projects: Cost-Benefit Analysis, Planning and Innovation”, ed.Elgar

P   -  como planear corretamente uma linha de metro?

R  -  integrando na análise de custos-benefícios a contabilização das vantagens e inconvenientes da linha, dos outros componentes da área metropolitana e das suas interações;
-a expansão do metro para Alcântara tem de considerar o plano urbanístico de Alcântara e a evolução demográfica e do emprego da área metropolitana
-a remodelação da linha de Cascais, a remodelação do nó de Alcântara
-o nó de Alcântara, o terminal de contentores de Alcântara
-o terminal de contentores de Alcântara, o terminal de contentores do Barreiro
-o terminal de contentores do Barreiro, o aeroporto do Montijo
-o aeroporto do Montijo as ligações ferroviárias e fluviais a Lisboa
-as ligações ferroviárias a Lisboa, a terceira travessia do Tejo
-etc., etc.

P  -  porque se defende tão emotivamente um
 projeto de investimento público?

R  -  porque somos intuitivos ("desde que existem
sociedades humanas, a razão sempre existiu, só que nem sempre de uma forma racional"- K.Marx); descendemos de indivíduos cuja sobrevivência dependia do instinto de fuga e não do tempo para  reflexão; a evolução não conseguiu eliminar isso; e não são controláveis todas as variáveis de um grande projeto
P  -  como se chega à definição de um grande 
projeto?

R  -  o processo é principalmente aleatório; sem o

 predomínio de motivos racionais e das regras da arte, a ideia

 original começa a consolidar-se e a atrair (fenómeno da 
polarização e da agregação por imperativo social ou hierárquico)

 o apoio de cada vez mais instituições e pessoas

P  -  decorrendo já um investimento público, que fazer
 em contexto adverso, incerto e inseguro?

R  -  as regras da arte dizem que se deve tentar sempre 
aplicá-las, limitando os danos e corrigindo o que for possível 
segundo critérios quantificáveis;

num filme de piratas “bons” e “maus” com Tyrone Power, o 
mestre de um navio que atacava a fortaleza do herói perdeu o
 leme e gritou imediatamente à tripulação, apesar de saber que
 ia bater nas rochas,  para caçar as velas de barlavento e folgar 
as velas de sotavento (manobra sucedânea da operação do leme
 mas de menor eficácia)

 Pdeve construir-se uma infraestrutura de  transporte antes

 ou depois de haver procura? (se não se constrói antes, a 

economia não cresce; se se constrói depois, perdeu-se
 tempo e eficácia, e corre-se o risco da procura cessar)

R  -  deve estudar-se caso a caso, e mesmo assim não

 há garantias de que a mais rigorosa análise de custos-

benefícios venha a ser confirmada pela realidade; uma 

das redes de metro com mais quilómetros, a de Madrid, 

cresceu durante muitos anos para zonas onde não 

existiam habitação, indústria ou serviços; hoje existem

P  -  em Portugal, gastou-se excessivamente em
 infraestruturas de transporte?

R Em termos estatísticos, não, aproximadamente 15% dos

 fundos comunitários na primeira década do século XXI; em

 termos de eficácia, sim


P  -  como sair do ciclo vicioso, a economia não
 cresce porque não há infraestruturas, não se
 constroem infraestruturas porque a economia não
 cresce?

R  -  numa economia altamente dependente do
 exterior,   é necessário que este, quer público
 (nomeadamente UE), quer privado, se interesse por
 investir;
      Internamente é essencial:
-reduzir as importações através da produção interna, 
nomeadamente de energia primária
-reduzir a dependência de combustíveis fósseis associada ao 
transporte rodoviário e aéreo, desenvolvendo o transporte 
marítimo/fluvial e ferroviário
-aplicar o conceito do “corredor progressivo” (metro de 
S.Paulo), um plano integrado a longo prazo e faseado, de modo 
a permitir continuamente pequenos avanços anuais 
independentemente dos ciclos eleitorais


Referências bibliográficas:
-Bent Flyvbjerg, “Decision-Making on Mega-Projects:
 Cost-Benefit Analysis, Planning and Innovation”, 
ed.Elgar
-Bent Flyvbjerg, M.K.Skamris, S.L.Buhl, “What causes 
cost overrun in transport infrastructure projects?”
-Alfredo Marvão Pereira, “Os investimentos públicos 
em Portugal”, ed FFMS
-Robin Hickman, Paul Fremer, Manfred Breithaupt
Sharad Saxena, “Changing course in urban transport”, 
ed.Asian Development Bank and GIZ
-Rolf Dobelli, “A arte de pensar com clareza”, ed.Temas 
e Debates
-Fernando Silva, “Manual condensado de transportes 
metropolitanos”, ed.Partenon






segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Acis e Galatea, Fundação Gulbenkian, 23 e 24 de fevereiro de 2017

Não sou crítico nem conhecedor de música, mas gosto muito de música, principalmente quando requer o instrumento da voz humana. Esta realização de Acis e Galatea foi um espetáculo de qualidade extraordinária, e com cantores portugueses. Ana Quintans, se não atingiu a perfeição, esteve tão perto, que na prática se pode considerar perfeição. E os cantores que a acompanharam estiveram à altura. O maestro argentino Leonardo Alarcon conseguiu tirar da orquestra gulbenkian um som cheio e firme.
Handel escreveu esta pequena ópera pastoral sobre um tema das metamorfoses de Ovidio. Ao gosto da época e integrado no desenvolvimento cultural e económico da Inglaterra de 1718. A revolução gloriosa tinha 29 anos (reforço do parlamento, dos direitos humanos e da atividade económica) e a quadrupla aliança (exércitos inglês, austríaco, francês e holandês) iria asfixiar as tolas ambições de Filipe V de Espanha. Em Portugal o ouro do Brasil, apesar dos esbanjamentos de D.João V, ia equilibrando as finanças. O novo riquismo de então abandonou o plano de Conde da Ericeira, pensado para criar uma economia sustentável, como se diz agora e como poucos compreendiam na altura.  O conde da Ericeira compreendia.
É interessante ver como Handel, ou melhor, o seu libretista (ver
http://www.naxos.com/education/opera_libretti.asp?pn=&char=all&composer=handel&opera=acis_and_galatea&libretto_file=english/libretto.htm )

ao descreverem os componentes da riqueza de uma das personagens, o fazem como se estivessem a caraterizar a riqueza de um senhor feudal inglês em 1718, como aqueles para quem Handel trabalhava, antes de se lançar como empresário : propriedade de extensas terras agrícolas e de gado.
Interessante também como Galatea faz ressuscitar o amante morto, numa associação com o cristianismo e com o pensamento mágico, que segundo alguns tem a origem na imaginação infantil e que dá por sua vez origem às religiões.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Lisboa e o Turismo - cenas na Lisboa 2017

Joaquim, então serralheiro mecânico numa serralharia em Campolide, tocou há dois anos à porta de um pequeno prédio em Alfama, ali por baixo do miradouro das Portas do Sol.
Era o prédio onde viviam os pais, e que era propriedade destes, desde que há uns anos mais atrás a Caixa de Previdência que o detinha, o vendeu a preço simbólico aos inquilinos, tal como os outros seus prédios, numa campanha que visava a fixação das pessoas na cidade que se desertificava.
O pai de Joaquim, com os dinheiros do trespasse da sua mercearia, perto da linha do elétrico, que recebeu de Bachir, paquistanês empreendedor, não teve dificuldade em comprar a casa.
Mas a casa estava degradada,  a pobre mãe já denunciava sintomas de demência senil e cada vez se mexia pior.
Já não descia as estreitas escadas e era o pai de Joaquim que fazia as compras e assegurava o serviço da casa.
- Que bom que vieste, disse a mãe ao filho, embora já sem ter consciência de que havia 6 meses que ele não os visitava.
Já o pai, não podendo evitar o desconforto da longa ausência, foi ouvindo cabisbaixo a desculpa de que Joaquim morava longe, no Cacém, e que a serralharia estava com dificuldades, que já não pagava o salário completo, e muito menos os subsídios de férias e de natal.
Como era apenas serralheiro, não usava os termos mais pomposos dos economistas, que a serralharia, como PME, estava flexibilizando o relacionamento laboral com os seus funcionários, embora a realidade fosse mais comesinha, as grandes empresas já não faziam com ela subcontratações nem os particulares surgiam com as suas pequenas ideias de remodelações domésticas.
Joaquim explicou-se finalmente ao que vinha. Que a câmara tinha lançado um programa extraordinário de apoio a obras, o "o porreirismo municipal empresta primeiro e tu pagas depois".
Que era fácil, o pai só tinha de assinar, e com as obras podiamos vir morar para aqui, podemos fazer um andar no sótão, recuado.
A mãe, apesar de senil, não quis, e o pai, embora contrariado, talvez ela não quisesse estar perto da nora, não quis ir contra a sua vontade, com muita pena de não poder ter a neta perto.
Como se esperava, a mãe morreu no fim do seguinte período de 6 meses, o pai assinou o contrato e Joaquim tratou das obras.
No outro período de 6 meses a serralharia de Campolide fechou. Tal como no resto da cidade, o setor secundário continuou a esvair-se em Campolide. O pai de Joaquim, depois da morte da mulher, mantinha-se soturnamente no seu canto e a sua saúde consequentemente degradava-se, enquanto as obras se concluiam. Joaquim continuava no Cacém.
- Pai, já sei o que é o melhor para todos nós, encontrei um lar ótimo, aqui perto, podes continuar a encontrares-te com os teus amigos de Alfama.
E assim aconteceu, o pai foi para o lar, as obras foram concluidas, Joaquim, livre das obrigações da serralharia, dedicou-se a preparar o prédio para o alojamento local a turistas.
Hoje, dois anos depois do início desta história, o prédio gera receitas suficientes, com a sala comum que servira de armazém e o patiozinho no rés do chão, dois quartos com WC no 1º e 2º andares e uma suite com terraço no sótão com vistas para o Tejo, para pagar o lar, a renda do Cacém e um rendimento razoável a Joaquim.
A rua estreitinha do prédio está sempre cheia de turistas, com as suas malas com rodinhas, Bachir está contente com os negócios, As poucas vizinhas sobreviventes, que tanto gostavam de conversar à varanda com a mãe de Joaquim, queixam-se por vezes do barulho que os turistas fazem no patiozinho, em noites de primavera, verão ou outono, mas não se escandalizam com as respostas, talvez por não entenderem bem o inglês: "nós pagamos para poder fazer barulho". E nas traseiras do prédiozinho há um elevador de montagem compacta e expedita para todos os andares  e sótão, para os turistas não terem de carregar as malas, não precisarem de ir pela escada estreita. Por vezes, a neta visita o avô no lar, é um dia de alegria. Mas a assistente social que visita o lar diz que ele está deprimido, que não sai, e assim pode não viver muito mais.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Semiótica - Teresa May

Consideremos a fotografia da primeira-ministro do Reino Unido com o primeiro ministro irlandês:


E experimentemos aplicar a semiótica, ou estudo dos sinais exteriores. Mas antes, digo que a senhora primeira ministro não me é simpática. Não gosto de seguidoras de Thatcher, a quem considero responsável por algumas regressões, de que posso citar o desprezo que sentia por quem vivia do seu trabalho sem conseguir juntar fortuna: "se tiveres 30 anos e continuas a andar de bus, és um falhado". A senhora May parece pensar o mesmo, com a agravante de ter aquele ar distinto, muito menos grosseiro do que a Thatcher. Devia ter sido uma rapariga lindissima, a senhora May, ainda hoje é muito elegante. Mas isso não impede a avaliação semiótica. Vejamos mais de perto:



O senhor irlandês diz qualquer coisa, que deve dizer respeito à sua nação, sublinhando a importancia do que diz com um ar compenetrado, a cabeça levemente desviada da direção do olhar, reforçando a postura afirmativa, embora levemente receosa. A senhora apara a fala do interlocutor com os lábios levemente apertados e o vinco de expressão bem definido, encostando ligeiramente a bochecha aos papos das olheiras, forçando um sorriso, mostrando que está concentrada em resistir à argumentação do outro, em não a aceitar, sequer considerá-la para análise e devolução de uma contraproposta. Uma outra forma da expressão "franzir o sobrolho".
Mas vamos para as mãos, cuja posição indicia o que se sente ou pensa.


Aqui é ainda mais clara a postura de superioridade da senhora. Aldous Huxley diria que a senhora é uma alfa e o senhor, quando muito um delta, por especial favor da senhora. A mão esquerda do irlandês está cerrada, denunciando nervosismo. A mão direita acentua o carater de importancia para o seu país, com o dedo indicador a indicar essa mesma importancia. Mas as mãos da senhora May,, ambos os polegares dobrados, como quem diz, quando me livrarei deste importuno? fazendo as mãos noventa graus, como personagem superior numa encenação de uma peça de Shakespeare.

Vamos agora para outro interlocutor, a quem é preciso mostrar mais consideração, Juncker:



Juncker está também numa postura afirmativa (coisa natural quando tem de se falar com esta senhora) mas confiante na sua comunidade de mais de 500 milhões de habitantes e visceralmente convencido que ela é essencialmente uma comunidade, com grande pena se os convencidos decisores políticos ingleses não quiserem  integrar-se (a decisão não devia ser de 2/3 dos cidadãos e cidadãs eleitores?). Tem um ar solto e decidido, vamos por aqui para cumprir a agenda que combinámos. Juncker é um caso interessante do inverso do princípio de Peter. Incompetente como primeiro ministro (transformou o seu Luxemburgo num concentrado de agencias financeiras e num quase off-shore - in-shore), transformou-se em digno dirigente comunitário, emendando a mão e lançando o seu plano de infraestruturas. Vejam quem o critica para verem se não tenho razão.


Teresa  May aparece aqui mais comedida e um pouco tensa. Sabe que tem de negociar os 57 mil milhões de euros para cortar as amarras, e o seu sorriso contido tem algo de condescendencia, sim, mas. Os lábios apesar de apertados estão mais rasgados e as bochechas alargadas. Os olhos semi-cerrados até parecem mostrar algum respeito, embora isso possa ser apenas um expediente contemporizador da serpente que prepara o bote. Certamente acha que não pode mostrar sobranceria, só pode guardá-la por dentro. Como foi possível este paradoxo da história? Numa sociedade dominada pelos descendentes dos chefes tribais normandos que reinvadiram a Inglaterra no século XI e se transformaram em senhores feudais, como foi possível consolidarem-se os fundamentos da democracia moderna, desde a magna carta aos poderes do parlamento, à libertadora criação da academia das Ciências no século XVII, à gloriosa revolução do século XVIII, apesar de asfixiarem a república do século XVII, de erguerem o business is business como lei e de acumularem preconceitos e complexos de superioridade?  E que nos dizem as mãos da senhora May?



Que para estarem de acordo com uma postura aparentemente dialogante, têm de estar ligeiramente recolhidas, alinhadas com o corpo, sem sobressair. Não vá pensar-se que quer contrariar sem argumentos a postura indicativa da mão esquerda de Juncker, talvez indicando a indicação dos 57 mil milhões das custas.
Por mais habilidosas que sejam as escutas informáticas, não vai ser possível transmitir uma mensagem à senhora May, mas ela seria, depois de ouvir na Antena 2 a entrevista sobre "Os reinos desaparecidos", do historiador inglês (há ingleses lúcidos) Norman Davies

que muita gente como eu não quer que o reino unido desapareça, mas possivelmente desaparecerá,  se a senhora May persistir. Eu, pelo menos, se fosse escocês, não hesitava, Escócia (que tal uma república como a do senhor da primeira foto?) sim à Europa, não à Inglaterra pretensiosa.












segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Da Portela ao Montijo passando pelo Barreiro

Meu caro colega e amigo


Estamos em desacordo porque, como bom montijense, apoia a decisão do aeroporto do Montijo e eu não.
Mas estar em desacordo não tem nada de mal. Antes pelo contrário, como diria Oscar Wilde por outras palavras, uma vez que é grande a probabilidade de todos estarem errados, porque todos estão de acordo, enquanto quando alguns estão em desacordo a probabilidade de alguns estarem certos é muito maior.
O que provavelmente se verificará neste caso do "aeroporto Mário Soares " (nunca fui fã do senhor, mas acho impróprio dele darem-lhe o nome a um aérodromo enquanto aeroporto civil). 
E claro que estamos de acordo que  a Ota era um desastre. Segundo um artigo dum piloto aviador na Ingenium, nos anos 80 a força aérea, ao estudar a logística para os F16 libertou a Ota por ter más condições meteorológicas, e o primeiro ministro da altura, sem ter nenhum acesso de dúvidas, achou que era bom para o NAL; depois veio outro senhor primeiro ministro que enterrou melhor a ideia, possivelmente na expetativa de grandes mais valias dos terrenos à volta.
Já não estaremos tanto de acordo quanto ao "não há dinheiro". Certamente que não haverá se não renegociarmos (não, não vou escrever a dívida) a ressureição dos fundos de coesão ou o reaproveitamento dos fundos do CEF e do Juncker (vá, podemos pôr a tocar o "impossible dream"), mas os números seguintes dão que pensar: 
pagamos ou compramos por ano, em milhões, 8000 de juros, 5000  de automóveis novos e jogos legalizados, 1500 de automóveis usados importados, 3600 com viagens de pessoas, 7000 de combustíveis fósseis importados (e ainda querem baixar os impostos ou manter as rendas aos senhores das centrais de carvão e gás; considere-se no entanto que o total de receitas fiscais é 43000 para que o setor automóvel contribui com 9000) ;  e que há dinheiro para "transacionar" jogadores de futebol por 30 a 50 milhões por jogador. Por outras palavras, dinheiro há, mas escoa-se-nos por entre os dedos com um sorriso cínico na boca dos senhores que aprovaram a PPP da ponte VG pelo dobro do custo do comparador público, e  dos senhores dos gabinetes de advogados promíscuos com o poder político que engendraram esclarecidos  mecanismos de transferência de propriedade da esfera pública para chineses, brasileiros ou franceses (curioso, desenha-se agora a transferencia do Novo Banco para o Lone Star, espelhando a transferencia da posse dos grupos  promíscuos com o BES para outros grupos que vão abocanhar as antigas glórias dos outros - interessante seguir o caso da Comporta - semelhantemente ao que se passou com o universo da SLN, o das ações valorizadas com informação assimétrica, em que as imparidades e as empresas endividadas e deficitárias ficaram para o público e o sumo ficou para a Galilei, tudo para que os mercados não se enervem - e contudo, como diria Galileu, lá se vão movendo juos negativos acurto prazo). 
Centremo-nos primeiro na concessão da ANA e depois na sua privatização. Interessante seguir os passos do senhor secretário de Estado da altura e reter a informação contida no livro "Facilitadores",  de Gustavo Sampaio sobre o gabinete de advogados que assessorou a função  https://ntpinto.wordpress.com/2014/10/02/os-verdadeiros-abre-portas/


É uma tristeza irmos de facto consumado em facto consumado pela mão de facilitadores e decisores (repare que a série "Os boys" na RTP, que tratava com humor negro este tema, foi praticamente silenciada pela comunicação social). O contrato de concessão previa que o concessionário construia o novo aeroporto. Quando se privatizou (isto é, quando se vendeu um ativo que dava dividendos , sem consultar os acionistas, que eram os contribuintes, além dos 3000 milhões terem ido para o défice em vez de reduzir a dívida, como mandam as normas), essa obrigação transitou para o novo concessionário, que não estava a contar com os atentados e a subida exponencial dos passageiros. E então subiu as taxas para conter a procura e combinou com os senhores com poder de decisão fazer um aeroportozito aqui à mão. A ser pago pelas  taxas aeroportuárias (mas o contrato de concessão não dizia simplesmente que o concessionário pagava, que para isso tinha os lucros que antes eram dividendos para o Estado?).
Lamento, mas  há demasiadas semelhanças com o terminal de contentores do Barreiro. Claro que os montijenses e os barreirenses, e os seus presidentes de câmara vêem com bons olhos estes empreendimentos, mas as leis da UE dizem que não pode haver aeroportos no meio das cidades, por causa da lei do ruído e por razões de segurança (a rota de aproximação da Portela, com vento dominante norte passa por cima de 4 hospitais, um deles psiquiátrico, Kafka não se lembraria de melhor). Além de que está por explicar como se garantem os 76 movimentos (48 + 24) com esse tal de e-merge point, para o qual não estão preparados muitos aviões low cost que andam por aí. Nem pensar em simultaneidade com o uso militar (mais um custo...). Dizem as regras de segurança de qualquer modo de transporte que os valores máximos não devem ser mantidos durante muito tempo, não contemos com o rendimento da bilha da Mofina Mendes. Além de que, com vento Oeste, não pensem nesses valores (ou estão a pensar aproveitar a pista ENE do Montijo no enfiamento da povoação? com a Portela fechada porque entretanto transformaram a pista NNW em estacionamento?).

Mas claro que tem razão, não há dinheiro para fazer um aeroporto a sério em Canha/Alcochete. Mesmo fazendo apenas uma primeira fase (1000 milhões de euros? a comparar com 800 milhões para o Montijo?) os custos da ligação ferroviária disparariam, subindo a fatura (mais 1000 milhões? embora fosse dinheiro ao serviço da área metropolitana e não ao serviço da Vinci). 
No entanto, a delirante linha de metro ligeiro na VG na melhor das hipóteses não ficaria por menos de 500 milhões. E em quanto vai ficar a aquisição de novos barcos e a construção de novos cais? Não esquecer a reparação do pontão avariado há anos no Terreiro do Paço. Também podemos pensar na reativação do ramal ferroviário do Montijo, com a consequente concordância no Pinhal Novo e a sobrecarga da linha do Algarve e da ponte 25 de abril.
Se tudo correr de feição para os empreendedores do Barreiro, vamos ter colisão de rotas fluviais com o terminal do Barreiro. Ou então conta-se com mais umas verbas para dragar a uma taxa mínima de assoreamento de 0,5 milhões de m3 por ano um novo canal de 2000 m com 3 m de profundidade em fundos  atualmente de sonda nula relativamente ao zero hidrográfico para as ligações fluviais ao Montijo.  A  4€ o m3 de dragagem dá  2 milhões de euros por ano, mas provavelmente sou eu que sou um exagerado.

Em síntese, direi que tudo o que se gastou ou vai gastar nas cosméticas da Portela (a propósito, não fazem os 1400 m de taxi way para evitar o cruzamento da pista principal? concordo que é caro, mas se querem "puxar" o aeroporto da Portela ao máximo ...) e nos 5 anos do que eu considero de dinheiro mal gasto no Montijo e nas ligações a Lisboa, deve ser descontado ao orçamento para um aeroporto a sério, de várias pistas construidas faseadamente. Assim ficamos com a ideia que o dito aeroporto não ficava tão caro como dizem, ou que só quem tem dinheiro pode poupar.

Um abraço desanimado

O sonho impossível?



The quest, the impossible dream,  do musical O homem da Mancha, de  Joe Daron/Mitch Leigh (1965)

Interpretação de Susan Boyle




tradução

To dream the impossible dream 
To fight the unbeatable foe 
To bear with unbearable sorrow 
To run where the brave dare not go 

To right the unrightable wrong 
To love pure and chaste from afar 
To try when your arms are too weary 
To reach the unreachable star 

This is my quest to follow that star 
No matter how hopeless, no matter how far 
To fight for the right 
Without question or pause 
To be willing to march 
Into hell for a heavenly cause 

And I know if I'll only be true 
To this glorious quest 
That my heart will lie peaceful and calm 
When I'm laid to my rest 

And the world will be better for this 
That one man, scorned and covered with scars 
Still strove with his last ounce of courage 
To reach the unreachable star 
The fight the unbeatable foe 
To dream the impossible dream 

And the world will be better for this 
That one man, scorned and covered with scars 
Still strove with his last ounce of courage 
To reach the unreachable star 
To fight the unbeatable foe 
To dream the impossible dream 


Sonho impossível, poema e adaptação da música do Homem da Mancha, de Chico Buarque e Ruy Guerra, interpretação de Maria Betânia




Sonhar mais um sonho impossível 
Lutar quando é fácil ceder 
Vencer o inimigo invencível 
Negar quando a regra é vender 

Sofrer a tortura implacável 
Romper a incabível prisão 
Voar num limite improvável 
Tocar o inacessível chão 

É minha lei, é minha questão. 
Virar esse mundo, cravar esse chão 
Não me importa saber 
Se é terrível demais 

Quantas guerras terei que vencer 
Por um pouco de paz 
E amanhã se esse chão que eu beijei 
for meu leito e perdão 
vou saber que valeu 

Delirar e morrer de paixão 
E assim, seja lá como for 
Vai ter fim a infinita aflição 
E o mundo vai ver uma flor 
Brotar do impossível chão 



Parte de uma fotografia premiada no concurso  World Press Photo . As pessoas contemplam o cadaver de uma pessoa assassinada em mais uma inconformidade da sociedade, neste caso nas Filipinas. Será impossível o


sonho de acabar com isto sem violencia?